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Como antes dissemos, nenhum país africano de língua portuguesa possui qualquer História da Literatura. O ex-Ministro da Cultura de Angola, escritor Boaventura Cardoso, resolvera que era chegada a altura de escrever uma História da Literatura Angolana. Por isso, empossou, há alguns anos, uma Comissão para esse efeito, sendo que, neste momento, a liderança passa naturalmente para a nova Ministra da Cultura, a historiadora Rosa Cruz e Silva, e os Vice-Ministros Luís Kandjimbo e Cornélio Caley, todos integrantes da Comissão.

Em Luanda, há cerca de dois anos, realizou-se uma reunião, entre outras que, entretanto, se efectuaram, da Comissão de Redacção da História da Literatura Angolana, liderada pelo seu presidente e mentor, o então Ministro da Cultura do país hospedeiro, a fim de efectuar um balanço da actividade entretanto desenvolvida. Foram aprovados um relatório bienal, o regulamento jurídico, prático e científico da Comissão e a metodologia usada.

A Comissão decidiu basear o seu trabalho no “método histórico”, “em ordem a construir uma obra de referência de modelo enciclopédico-evolutivo, numa perspectiva multidisciplinar”, tendo ficado estabelecidos, finalmente, cinco grupos de trabalho, que elaboraram os índices de matérias, constituindo assim o “esqueleto” temático da futura História da Literatura Angolana. A tais grupos de trabalho correspondem cinco grandes divisões dessa História (resultando daí, se assim for oportuno, cinco volumes, mas não há certeza quanto a esse assunto): Literatura Oral, Período Nativista, Literatura Colonial, Período Anti-Colonial e Período Pós-Independência. 

A História da Literatura Angolana é uma prioridade de trabalho intelectual para os angolanos, já definida no III Simpósio da Cultura Nacional, realizado em meados dos anos 80. Segundo esse entendimento, a “literatura adianta-se e prevê a Nação, ergue-se voz de resistência e acompanha a formação da consciência nacional”. Por isso, o Ministério da Cultura, com o empenho pessoal do seu mais alto responsável, acompanhado por um seu Vice-Ministro, achou por bem “produzir um discurso coerente para uso das novas gerações”. Espera-se que resulte uma obra esclarecedora, clara e aliciante para leitores de todo o tipo e lugar, inclusive estudantes, cidadãos angolanos e investigadores.

Criada por despacho de 2005, a Comissão tem por finalidade elaborar a primeira História da Literatura Angolana, a ser publicada no ano de 2012. Prevê-se que os derradeiros conteúdos a incluir digam respeito ao ano de 2010, e que deverão constar de referências aos últimos livros publicados, ficando o ano de 2011 para a revisão e reajustamentos sempre necessários.

A Comissão integra investigadores de Angola, Brasil, Portugal e São Tomé e Príncipe. Para além do referido presidente, o escritor angolano Boaventura Cardoso, que, mesmo sendo, na época, Ministro da Cultura, sempre participou nas reuniões plenárias, e também nas duas sectoriais de Lisboa e do Rio, a Comissão inclui também Virgílio Coelho (Vice-Ministro da Cultura, antropólogo e editor), Jorge Macedo (coordenador executivo e escritor), Conceição Cristóvão (deputado e escritor), Luís Kandjimbo (adido cultural da Embaixada de Angola em Lisboa e ensaísta e, agora, novo Vice-ministro da Cultura), Cornélio Caley (professor e ensaísta e novo Vice-ministro da Cultura), António Fonseca (escritor e o jurista de serviço), Rosa Cruz e Silva (directora do Arquivo Histórico Nacional e historiadora e actualmente a nova Ministra da Cultura), todos angolanos, e ainda Laura Padilha, Tânia Macedo e Carmen Lúcia Tindó Secco, professoras e ensaístas brasileiras, respectivamente, da Universidade Federal Fluminense (Niterói), Universidade Estadual de São Paulo e Universidade Federal do Rio de Janeiro, e, finalmente, Ana Mafalda Leite (ensaísta e escritora, portuguesa), Inocência Mata (professora e ensaísta são-tomense), ambas professoras da Universidade Clássica de Lisboa, e o signatário desta notícia, Pires Laranjeira, da Universidade de Coimbra. A Comissão tem capacidade para convidar colaboradores, sob a supervisão ministerial.

Uma preocupação importante da Comissão é a do acesso às fontes. Por outro lado, houve certas questões fulcrais que marcaram as sessões da reunião, e cumpre aqui realçar a da coesão e coerência do trabalho dos diversos grupos, justamente alcançada, após dois anos de ensaios e reajustes, visando a produção de uma História que não seja o mero acumular enciclopédico de textos diferenciados de autores diversos, mas antes um organismo articulado e unificado, que possa contribuir para o conhecimento da cultura angolana e se apresente como parcela activa de pensamento e projecto de angolanidade do país. Nunca será demais salientar a abertura do anterior Ministro da Cultura, Boaventura Cardoso, à participação de investigadores estrangeiros num projecto desta envergadura, cujo objectivo é não somente literário, mas também político-cultural, no sentido em que se integra claramente numa política de Estado.

 

Pires Laranjeira

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