
Na passada Primavera, um convidado do Norte de Portugal, de visita à Galiza, iniciou conversa com um professor galego comentando: “Que tal este ano? Muchos problemas por lo de la sequía?”. O professor galego olhou-o incrédulo e apontou-lhe a janela, respondendo, em português: “Mas não vê como chove lá fora? Estamos na Galiza!”. A anedota, infelizmente, é real e vai ocorrendo, com variantes, na maior parte dos encontros, ou mais vale dizer desencontros, galego-portugueses. Por algum motivo inexplicável, os conferenciantes portugueses, convidados pelas universidades galegas, teimam em puxar do melhor castelhano, mesmo quando os anfitriões galegos lhes pedem o favor de falarem em português. Os conferenciantes agradecem, mas interpretam isto como apenas uma oferta amável, retórica, sem validade efectiva. E a sala rebenta com uns sonoros: Buenos días…
Este amor não correspondido da Galiza por Portugal não se circunscreve ao espaço da Universidade. Sentimo-lo no final dos concertos de bandas portuguesas na Galiza e nas invariáveis Muchas gracias, sofremo-lo na avidez por Lobo Antunes e Pessoa nas livrarias galegas e na respectiva indiferença pelo livro galego a sul do Minho, suportamo-lo de cada vez que um português pergunta a um galego pela tourada ou pelo flamenco.
Nisto, tenho notado que os brasileiros são mais atentos. Se são entendidos em Português, é nessa língua que falam. E chegam a chamar Portugueses do Norte aos galegos, que com isto se comovem até às lágrimas. Caetano Veloso, por exemplo, aprendeu a falar português na Galiza, e no último concerto que deu em Santiago de Compostela não se lhe ouviu nem um arranhão no portunhol. Mas a compreensão da complexidade dos vários territórios no espaço chamado Espanha deveria tê-lo alertado para que a proximidade entre o Português e o Galego é extraordinária, mas não ilimitada. Fechando o concerto com a canção “A luz de Tieta”, procurou que o público repetisse o refrão: “Tieta…eta…eta….“. E não entendeu que o público, mudo, se recusasse a gritar por “Eta”.
Ana Bela Almeida


Caetano Veloso aprendeu a falar português na Galiza????? É preciso ter cuidado com tais afirmações. Qualquer dia, escreve-se, como está no Museu da Língua em São Paulo, que a lírica antiga era “galaico-brasileira”……
Isto é apenas um blogue, mas o rigor, entre universitários, fica bem.
Exactamente, Caetano Veloso aprendeu a falar português na Galiza. E em dois dias. Convém esclarecer, por uma questão de rigor entre universitários, que antes disso falava baiano. E quanto à lírica galaico-brasileira, que doçura! Isto tudo por uma questão de rigor universitário. Presunção e água-benta, fica bem, fica sempre bem.
Entenda-se como que Caetano Veloso aprendeu que na Galiza devia falar (galego-)português (“a nossa língua é o galego-português”, dixo exatamente) e nõ castelão ou portunhol, como no triste espectáculo do ministro, que nesse caso foi da incultura, Gilberto Gil, quando dizia que nõ queria falar a sua língua na Galiza (a língua própria do seu país e do país onde estava, a sua própria língua que naceu na Galiza!) por nõ favorecer “os nacionalismos”… Talvez, nessa ignorância, achava que nõ favorecia nacionalismo nengum, que nõ é “favorecer os nacionalismos” fazer-lhe o jogo a um’a “inocente” ideologia que visa que o castelão deve ser a única língua imperante num’a Espanha onde, polos avatares da história, pudo também estar incluida Portugal. Se isso nõ é favorecer o nacionalismo…
PS: Isto está escrito na minha língua, em galego.
“Por outro lado, a anedota da recusaçõ do público a nõ gritar “eta, eta, eta”, nõ acho que fosse por falta de proximidade entre o galego e o português…” (quigem dizer)
Como sempre, a atenção para um certo fato é circunscrita àqueles por ele diretamente afetados. No mais, a ignorância predomina. Não há que se esperar demais do português cotidiano, “e que raios tem ele com a Galiza, pois não?”, ou mesmo do acadêmico, ao menos com respeito a uma área que não seja a que estuda.
Como brasileiro, estudante da língua portuguesa, posso compreender a sensibilidade brasileira, explicar-lhe talvez. Um conjunto mínimo de distinções variadas com respeito aos usos verbais e fonológicos parece ser suficiente para que o português geral compreenda o “brasileiro” como uma outra língua. Poucos são os jovens portugueses com quem tenho que não me propuseram discutir qualquer coisa disso. Sim, o nosso pronome átono tende à próclise (tal como se deu no galego), mas isso pouco ou nada afeta a interação entre dois falantes de variedades distintas. Uma vez, porém, que um brasileiro experimente as respostas e a opinião geral portuguesa sobre a sua língua mãe, isto é, a variedade que fala, é evidente que, ao conhecer o caso galego, perceberá que, tal qual o brasileiro fala, sim, português, também o galego semelha ser uma variedade dele.
Por outro lado, eu, fosse galego, poderia até gostar de que reconhecessem minha maior proximidade a Portugal que à Espanha, mas não aceitaria ser chamado de “português do Norte”. Não fica melhor a expressão “galego do Sul”?
É claro, à proposta de que há efetivamente uma unidade lingüística entre Portugal, Galiza, Brasil e África lusófona, subjaz um conceito abrangente de língua. Uma pessoa do interior do Nordeste, dali de Pernambuco, Paraíba, Ceará, bem era capaz de conversar com um galego ou mesmo um alentejano, mas o lisboeta e o portuense ainda menos se fariam entender. As variedades entram em especificidades tais que é possível que mesmo dois brasileiros não raro se desentendam. Imagino que o mesmo aconteça entre portugueses. Para além das particularidades dos usos, a mídia cumpre aqui um papel importante: promover uma variedade lingüística economicamente destacada (no Brasil, a da região sudeste) acaba por, também, transmitir seus usos como generalidade. Do mesmo modo, seria a única coisa que elogio no acordo ortográfico (facilitar a interação, ainda que não fosse difícil entender uma redação com “p”s e “c”s)… Mas isso já é pertinente a outra questão.
Bem, meus elogios ao blog.