Aulas de Conversação


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Para ensinar Português Língua Estrangeira (PLE), como para ensinar qualquer língua estrangeira, a criatividade é um trunfo essencial, ainda que, como ficou exposto na primeira parte deste texto, não seja suficiente para garantir um processo de aprendizagem bem sucedido. Longe vão os tempos em que o estudo de uma língua estrangeira se concebia sob uma perspectiva exclusivamente normativa (aprender francês, por exemplo, equivaleria a aprender e aplicar as regras da gramática francesa). Hoje em dia, é comummente aceite que, no processo de aprendizagem de uma língua estrangeira, dedicar o tempo da aula inteiramente ao estudo das regras gramaticais e à resolução de exercícios não é eficaz. Tendo em conta que uma língua é um meio de comunicação – sem no entanto cair na perniciosa concepção de que o importante é que a mensagem passe, independentemente da correcção do discurso, ideia que não perfilho de todo – há quatro competências comunicacionais a desenvolver no processo de aprendizagem: ouvir, falar, ler, escrever.

Na criação das suas actividades para a aula, o professor de PLE terá então de considerar o desenvolvimento destas quatro competências, para que os alunos alcancem um real domínio da língua portuguesa. Claro que se pode sempre defender que qualquer actividade em português é útil para alunos que não dominam essa língua: se outro objectivo não houver, os alunos estão em contacto com o português e algum proveito tirarão dessa exposição à língua. Porém, não só isso não é inteiramente verdade como, nesse caso, não estamos longe da lógica combatida no texto precedente, isto é, de que qualquer falante nativo (como o estudante erasmus que nos serviu anteriormente como exemplo) pode cumprir o objectivo de possibilitar um contacto com a língua. Reiteremos pois que nos referimos a um processo de aprendizagem de uma língua, com objectivos que são substancialmente diferentes dos do mero contacto com a língua de estudo, e que exige a presença de um professor especializado.

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Quando me apresento como professor de Português Língua Estrangeira (PLE), é frequente gabarem-me a sorte de ter um trabalho tão criativo. Mas a verdade é que, como qualquer outro professor, o professor de PLE precisa de aliar à indispensável criatividade o rigor. Persiste no imaginário de muitos a ideia de que o único requisito para ensinar uma língua é tê-la como língua materna (eu sei falar português, logo eu posso ensinar português), ou seja, de que ensinar a própria língua não exige grande preparação nem trabalho. No máximo, admite-se que um professor de português está mais qualificado para desempenhar essa tarefa, sem se considerar todavia que o ensino de português a falantes de outras línguas compreenda uma especificidade. A realidade contraria esta ideia: grande parte dos professores de português do ensino primário e secundário vêem-se em sérias dificuldades quando acolhem numa turma um aluno com conhecimentos incipientes da língua portuguesa ou que a não sabe falar de todo.

Imaginemos, como exemplo que nos guiará ao longo deste texto na tentativa de definir uma especificidade do professor de PLE, a seguinte situação: um estudante português que participe num programa de estudos erasmus num país estrangeiro tem aí a ideia e a oportunidade de ensinar português a estrangeiros com o objectivo de ganhar uns trocos (vida de erasmus oblige). Rapidamente se aperceberá de que não tem grandes hipóteses de sucesso se para isso contar unicamente com o conhecimento empírico que todos temos da nossa própria língua. Vejamos porquê.

É sabido que a aprendizagem de uma língua é um trabalho que exige método – logicamente, o ensino da língua também o exige. Sem definir um método de trabalho, dificilmente um professor (ou, no caso, um estudante erasmus) conseguirá ensinar de forma eficaz um estrangeiro a falar, a compreender, a escrever, a ler em português. É claro que muitos indivíduos que não falam português, imersos num ambiente onde só se fala essa língua (a chamada situação de input), acabarão por alcançar competências mínimas em cada uma dessas áreas ou, em palavras mais simples, acabarão por conseguir desenrascar-se. Todos temos conhecimento de casos semelhantes, alguns extraordinários, quanto mais não seja de portugueses imigrantes que se integraram noutras comunidades linguísticas sem estudos aprofundados, isto é, através do “ouvido”. Contudo, para que não haja confusões, sublinho que estamos a falar do ensino de língua estrangeira (que aliás muitas vezes não acontece em situação de input), em que o objectivo da aprendizagem não é conseguir desenrascar-se, mas sim efectivamente desenvolver capacidades nesses diferentes domínios.

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Quando um professor de Português Língua Estrangeira (PLE) trabalha fora do território nacional, com alunos que nunca ouviram português e que têm do mundo lusófono escassos dados culturais e noções geográficas aproximativas, coloca-se com maior acuidade a questão dos conteúdos da disciplina. O que se deve ensinar numa aula de Português? A resposta imediata e evidente é “a língua portuguesa”. Alguns segundos depois, no entanto, qualquer professor de PLE originário de Portugal será tentado a acrescentar “e a cultura portuguesa” (sendo que, com boa vontade e ambição, alguns desses professores dirão ainda “e a cultura lusófona”).

Recentemente pude assistir a um colóquio sobre Ensino do Português e das Culturas de Expressão Portuguesa, organizado pelos leitores de português do Instituto Camões em Paris, que decorreu a 30 e 31 de Outubro na Universidade de Paris 8 Vincennes-Saint-Denis. Um dos aspectos que nesse colóquio obteve maior consensualidade foi o da impossibilidade de ensinar língua sem veicular cultura. Deste postulado infere-se geralmente, no entanto, algo ligeiramente diferente – que quando se ensina língua se deve também “ensinar cultura”. Aliás, a tradição francesa quer que o processo de aprendizagem de uma língua estrangeira compreenda langue e civilisation, cabendo neste último termo áreas díspares como a história, a geografia, os costumes de um povo e as realizações artísticas mais relevantes de uma cultura. Em suma, o processo de aprendizagem do italiano, por exemplo, implica a familiarização com os feitos de Garibaldi, a capacidade de localizar no mapa os Apeninos, o conhecimento dos nomes dos vários tipos de massa e a contemplação de O Nascimento de Vénus.

Curiosamente, a melhor intervenção do colóquio, de Martine Abdallah-Pretceille, punha em evidência que já não é possível actualmente, no contexto de ensino de uma língua estrangeira, insistir na abordagem descritiva de uma cultura nacional, na ideia de que esta constituiria como que um bloco isolado e delimitado, alheio à complexidade das relações sociais que caracterizam a contemporaneidade. Segundo as suas palavras, “em situação de pluralidade cultural, são sobretudo os fragmentos culturais que são significativos e menos as culturas na sua globalidade”, isto é, cada vez mais, no mundo contemporâneo, os indivíduos constroem a sua identidade pela apropriação de traços culturais que são transversais e móveis e definem-se cada vez menos pela pertença a uma cultura estanque e herdada.

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Gonçalo Duarte, licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e com mestrado em Literatura Comparada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humana da Universidade Nova de Lisboa, trabalhou como professor de Português Língua Estrangeira e de Português Língua Segunda em Itália e em França. É actualmente leitor do Instituto Camões na Bélgica, trabalhando nas Universidades Livre de Bruxelas e Católica de Lovaina. Tem no prelo o seu primeiro livro, O Trágico em Carlos de Oliveira e Graciliano Ramos. Na secção “Aulas de Conversação”, procurará reflectir sobre questões relacionadas com o ensino de português para estrangeiros.

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