Outubro 2008


Em tempos tivemos uma língua que era nossa. Entendíamos essa posse como rectangular, pequenina e ciosamente a guardávamos como pé-de-meia cultural. Depois veio a expansão, que continua a alimentar sonhos, sejam eles de lugares, poderes, saberes ou vãs glórias de mandar. Nesse mundo demasiado grande para nós, o Português cresceu, fugiu, tornou-se outro e tornou-se de outros. Partilhamos hoje a língua com gente que não conhecemos e que nos coloca fora das quatro linhas porque nem sabe se existimos ou onde existimos. Comunicamos então com esses outros? Comunicam eles connosco? Ou usam a língua que já é deles sem nos pedir licença? E licença seria necessária?

O recente Acordo Ortográfico diz que nim, Mia Couto diz que não, eu digo que tanto faz. Talvez nem seja assim tão importante o poder de um novo colonialismo linguístico. Talvez seja mais importante namorar a língua, dançar a língua e perceber que o seu uso por outrem não é propriedade, antes diálogo intercultural, afinal o centro afectivo da Lusofonia. O que acham?

 

Joana Vieira dos Santos

 

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.

Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou.

Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.

Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulburbio.

No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.

Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?

Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?

(mais…)

Maria Joana de Almeida Vieira dos Santos é doutorada em Letras pela Universidade de Coimbra (Linguística Portuguesa) desde 2000. Desenvolve trabalho de investigação em sintaxe (frase, verbo, preposição) e assegura a docência de cadeiras de Linguística Francesa (História da Língua, Sintaxe), Comunicação e Linguística Portuguesa (Sintaxe) em cursos de 1º e 2º ciclo. Publicou trabalhos sobre o conjuntivo e tem em curso a elaboração  de um manual de apoio sobre linguagem e comunicação.

Neste blogue, assinará a rubrica Café da Lusofonia, sobre questões de língua portuguesa, que abre com um comentário a um texto emblemático de Mia Couto, transcrito no post seguinte.

 

O Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, todos os anos atribuído no Brasil pela PT, e já um dos maiores e mais prestigiados prémios literários do Brasil, foi para o livro O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, romance a que tinha sido já atribuído o importante prémio Jabuti. A obra, que aborda a experiência de criar um filho com síndroma de Down, será editada em Portugal pela Gradiva. Esperemos que o prémio acelere a edição. Sobre o prémio, pode-se ler uma notícia exaustiva (embora com a foto do autor errado…) aqui. Numa das últimas sessões de Os Livros Ardem Mal, Gonçalo M. Tavares falou-me com entusiasmo do romance de Tezza, que espero ler muito em breve.

Ao prémio concorriam escritores não apenas brasileiros: o angolano Ondjaki com Os da minha Rua, ou o português António Lobo Antunes, com Eu Hei-de Amar uma Pedra.

Como se pode ler no site do escritor, incluído desde o início na página Escritores, deste blogue, Tezza tem uma curiosa relação com Coimbra, pois, e cito,

 

Em dezembro de 1974, foi a Portugal estudar Letras na Universidade de Coimbra, matriculado pelo Convênio Luso-Brasileiro, mas como a universidade estava fechada pela Revolução dos Cravos, passou um ano perambulando pela Europa.

Ou seja: a Revolução ofereceu a Tezza um ano de passeio… Os links deste texto são bem curiosos, pois apresentam uma foto do autor no pátio da universidade e um desenho seu da Clepsidra, ponto de encontro de pelo menos uma geração de estudantes da universidade.

De Cristovão Tezza, universitário da área dos estudos literários, com uma tese sobre Bachtin e o Formalismo Russo, pode-se ler também no seu site uma série de resenhas e textos críticos editados em várias publicações periódicas brasileiras.

 

Osvaldo Manuel Silvestre

Comemoram-se os 100 anos da morte de Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Comemorar aqui não significa festejar — que Machado não é santo —, mas lembrar com, lembrar em conjunto.

Nessa memória de Machado, sinto necessidade de recordar alguns pontos importantes de sua obra: ela é brasileiríssima, mesmo sem falar de papagaios, coqueiros e mulheres sensuais, porque mostra um Brasil — melhor dizendo até — um Rio de Janeiro, do século XIX, e é ao mesmo tempo universal; os tempos mudaram, outros são os costumes, mas a alma humana, se principal objecto, faz que continue actual.

E como lembrar é trazer à tona, tirar do esquecimento, tornar presente, nada melhor que um dos contos-teoria daquele que foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras — a Teoria do Medalhão.

Não poderiam ser mais actuais as observações do pai de Janjão. A notabilidade continua importante, qualquer que seja a profissão escolhida. E a aparência física o primeiro passo para que alguém seja considerado ALGUÉM. Procure no seu dia-a-dia, no seu local de trabalho, entre os seus conhecidos. Não encontrará quem jogue voltarete, whist ou dominó. Mas talvez ache quem jogue bilhar ou qualquer outro jogo one não há dispêndio físico nem psíquico.

Também continuam importantes na construção desta máscara social o mostrar-se e a palavra vazia, isto é, o vocabulário «tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim…», o clichê (onde cabem algumas frases feitas, agora talvez não mais latinas), forma de «pensar o pensado».

A terminologia científica, o discurso político, a filosofia, devem continuar a reduzir-se à palavra repetida, não reflectida, não própria, pois a sociedade não toleraria o que a tirasse do marasmo. «Condeno a aplicação, louvo a denominação», diz o pai a Janjão. Em outras palavras — Verba non res — invertendo o clichê.

E tudo isso deve vir envolto em publicidade, disfarçada, que divulgue a pessoa em pequenos círculos, além de outra, de âmbito mais largo, mais dispendiosa, que passa pelos jornais.

A teoria do medalhão, no entanto, é falaciosa: a ironia, traço que o medalhão não deve possuir, pois leva a pensar, é exactamente o recurso utilizado por Machado para expor suas ideias, transformando-as, assim, em crítica à palavra autoritária sobre a qual se erige o poder. A ironia, que corrói, é, aliás, um recurso machadiano por excelência e está relacionada com a derrisão e o nihilismo do escritor.

Se quiser saber mais sobre Machado de Assis e sobre as comemorações que a Academia Brasileira de Letras vem organizando em torno do centenário de sua morte, consulte: http://www.machadodeassis.org.br/

No site do Ministério da Educação da Educação do Brasil, pode ver um importante documentário recente sobre o autor: Machado de Assis-Um Mestre na Periferia.

 

Maria Aparecida Ribeiro

Maria Aparecida Ribeiro é docente de literatura e cultura brasileiras na FLUC, desempenhando ainda a tarefa de directora do Instituto de Estudos Brasileiros. Tem-se dedicado quer à edição de textos clássicos da literatura brasileira, ou da literatura portuguesa que tem como tema o Brasil, quer ao estudo do diálogo intertextual entre as literaturas brasileira e portuguesa. Publicou ainda uma história da Literatura Brasileira na Universidade Aberta e um volume da História Crítica da Literatura Portuguesa (Realismo e Naturalismo).

Neste blogue, assinará uma rubrica, de nome Papagaio Louro, sobre literatura e cultura brasileiras.

No próximo mês de Novembro, estudantes e alguns professores de Estudos Portugueses e Lusófonos visitarão a exposição Weltliteratur. Madrid. Paris, Berlim, S. Petersburgo, o Mundo!, patente na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. A exposição, pensada por António Feijó, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi concebida pelos arquitectos Francisco e Manuel Aires Mateus (responsáveis por várias obras em Coimbra, por exemplo, a livraria Almedina Estádio).

A exposição foi concebida como uma viagem pela literatura portuguesa do século XX, ou pela ideia de literatura – uma «literatura do Mundo» – que se desprende da obra maior de Fernando Pessoa e seus camaradas de geração. Uma descrição da exposição, por José Mário Silva, pode ser lida aqui (do seu blogue extraímos também a foto que ilustra este post). O mesmo jornalista entrevistou António Feijó, entrevista cuja leitura se recomenda.

A visita está também aberta a estudantes de outras licenciaturas, bem como a estudantes de pós-graduação, que para tal terão apenas de contactar os coordenadores do seu curso ou mesmo os de Estudos Portugueses e Lusófonos.

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