COMPLEXOS

Vieram dizer-me que a minha língua
é a maior que há no mundo. Ao espelho, ponho a língua de fora: é
a minha língua, é portuguesa, mas não sei por que é que a consideram
a maior língua do mundo. Por muito que veja a minha língua ao espelho,
a língua que vejo não é maior nem mais pequena do
que milhões de outras línguas que há neste mundo. A não ser
que a minha língua não seja portuguesa, ou que uma língua
não tenha nacionalidade. Ponho-a de fora: e em vez de português
falo espanhol, falo inglês, falo francês, falo as línguas que sei
e as que não sei para que a minha língua deixe de ser portuguesa;
mas continuam a dizer que a minha língua é portuguesa,
e que é a maior que há no mundo. É, pelo menos, tão grande
como a língua de Camões, ou como a língua de Pessoa; a não ser
quando Camões fala castelhano, ou quando Pessoa fala inglês.
«E se me deixassem a língua em paz?» peço. Não serve de nada.
«Não vês que a tua língua é a maior do mundo? Como tu, duzentos milhões
têm a mesma língua; por isso, é a maior que há no mundo,
sem pensar nas outras que podem ser faladas por mais gente mas não
são tão grandes como a tua.» E volto a olhar a minha língua
ao espelho. «É a língua do Camões, a língua do Pessoa…» E sinto
um sabor estranho na minha boca, ao saber que tenho lá dentro duas
línguas, além da minha. E se eu bater com a língua no céu da boca? É
a minha língua, ou é a do Camões, ou é a do Pessoa, que vem bater
no céu da minha boca? E agarro na língua, para ver qual é a minha,
e arrancar da minha boca as línguas que não me pertencem, e devem
estar ressequidas de um e de mais séculos, se forem a do Camões e
a do Pessoa. É que eu não quero ter a maior íngua do mundo; quero,
apenas, que a minha língua esteja quietinha, sem complexos
de grandeza, no lugar em que preciso dela para ir bater no céu
da boca, sem ter de empurrar para o lado as línguas do Camões, do Pessoa,
ou as dos outros duzentos milhões que fazem com que a minha língua
seja a maior do mundo.