Nuno Júdice é um dos mais importantes poetas portugueses de hoje. Tendo-se estreado em volume em 1972, com A Noção de Poema, editou em seguida uma série ininterrupta de livros que configuram uma obra das mais singulares da poesia portuguesa contemporânea mas, para além disso, dão voz a uma dedicação sem téguas à escrita, aliás um dos seus temas centrais, na poesia mas não apenas. A última reunião da sua obra poética é o volume Poesia Reunida 1967-2000. Poeta traduzido em várias línguas, conquistou já os mais importantes prémios literários portugueses. Tem também uma obra significativa na ficção, no teatro ou no ensaio. É professor de literatura portuguesa na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Nuno Júdice disponibilizou-se a responder a algumas perguntas nossas sobre os poemas «Lusofonia» e «Complexos». Transcrevemos em seguida esse diálogo e agradecemos, ao poeta e ao colega, a disponibilidade revelada.

 

EPL Os poemas «Lusofonia» e «Complexos», do seu recente livro A Matéria do Poema, parecem denunciar algum cepticismo sobre a «lusofonia». O primeiro poema explora uma situação em que as mesmas palavras já não significam o mesmo em Portugal ou no Brasil e conclui por uma espécie de desistência: «mudar de café», evitando assim as palavras problemáticas. É essa a sua posição em relação à lusofonia?

NJ  É sem dúvida um poema irónico, mas que tanto se pode aplicar ao Brasil como em relação a lugares diferentes de Portugal onde ainda podem surgir divergências de sentido em relação a determinadas palavras. É uma situação efabulada mas que, de certo modo, nasceu de uma edição de uma antologia minha no Brasil onde havia poemas em que usava a palavra rapariga. Pus a questão de saber se isso se prestaria a equívocos, dada a significação pejorativa que o termo tem nesse país, mas liminarmente a responsável pela edição disse-me que o problema não se colocaria dado o contexto em que é usado.

EPL O poema «Complexos» explora a ambiguidade entre «a minha língua» e «a língua de Camões» e deseja uma língua «quietinha, sem complexos de grandeza». Tornou-se mais céptico quanto à afirmação internacional do português após ter desempenhado funções relevantes, na área da política cultural, em Paris?

NJ Houve, em certo momento da dissolução do mito imperial, depois do fim das colónias, a tentação de substituir esse poder territorial por aquilo que Pessoa anteviu como o império da Língua. Falava-se dos duzentos milhões de falantes e dos múltiplos espaços onde o português está presente como se isso correspondesse a uma utilização concreta das potencialidades dessa vasta comunidade linguística. Existe sem dúvida uma realidade que se impõe em termos numéricos, e que pode vir a dispor de uma efectiva presença no plano internacional através da língua comum; mas a afirmação cultural que lhe está associada é mais do que reduzida, pesem embora alguns passos importantes que vão desde as traduções nalgumas línguas de vasta divulgação, como o inglês ou o espanhol, o Nobel de Saramago, e sobretudo a «globalização» pessoana. Mas falta uma consciência política da língua como o mais eficaz agente de afirmação da importância das culturas que se formaram a partir dela, embora alguns passos se estejam a dar nesse sentido: refiro-me à tentativa de articular o ensino do português entre Portugal e os países lusófonos. A questão mais complexa tem a ver com o Brasil; e quando se critica o afastamento desse país em relação a nós, pergunto se o desequilíbrio não se dá em sentido inverso, dado que, por exemplo, não existe equivalência entre o número de alunos e de professores de literatura portuguesa nas universidades brasileiras e o risco de extinção do ensino das literaturas lusófonas em Portugal.

EPL Como escritor, como se situa em relação a esta questão? Ou seja, é-lhe indiferente poder ser lido, sem mudar de idioma, no Brasil ou em África? Ou parte do princípio de que no Brasil ou em África, quem o leia muda necessariamente de idioma? Ou, ainda de outro modo: como poeta a questão da língua não implica ou exige multidões? A língua do poeta é sempre «estrangeira»?

NJ  Nunca tive qualquer problema em ser entendido no meu português – falado e escrito – no Brasil. É uma questão que não coloco sequer.

EPL Estes poemas parecem ser uma reacção «em verso» à polémica sobre o acordo ortográfico, recentemente ratificado, e na qual teve uma intervenção pública notória. É contra este acordo ou contra a ideia de um acordo que unifique a ortografia do português?

NJ  Quando me pediram uma opinião sobre o acordo ortográfico manifestei a minha adesão de princípio a uma uniformização mínima do português, que possa simplificar a edição em todo o espaço desta língua. O acordo coloca alguns problemas, sem dúvida, que hão-de acabar por ser corrigidos na sua prática. Ninguém é obrigado a segui-lo a 100% – e isso vê-se no último livro do Herberto Helder em que ele utiliza uma ortografia completamente à margem dos dicionários – e não vai ser nem perseguido nem condenado por meter acento circunflexo em «pônho» ou em «sôpro». Mas esta uniformização parece-me ser uma medida útil – e ao olharmos para a história da língua vemos que houve já muitas e variadas alterações ortográficas, por vezes muito mais radicais do que esta, sem que a nossa língua tenha acabado por causa disso. Estamos no plano de uma convenção – e esta regra nova faz parte de um caminho que ainda há-de passar – esperemos que noutro século – por novas alterações. Quanto à leitura, os livros impressos no nosso português actual continuarão a ser lidos, tal como lemos os livros do século XIX ou os do século XVI ou XVII sem grande dificuldade, para não falar dos manuscritos medievais. Aquilo para que chamei a atenção foi para a necessidade, na sequência da aplicação do acordo, de insistir na importância da etimologia, regressando à inclusão do latim como uma das alíneas das aulas de português no secundário. Parece-me, por outro lado, absurdo carpir o desaparecimento de algumas consoantes mudas quando, na escrita das mensagens de telemóvel e na linguagem dos emails ou dos grupos de contacto na Internet, o português está a ser reduzido a abreviaturas que, por extensão, passam para a escrita corrente dos grupos que o praticam. É mais grave o que se passa nesse domínio do que uma reforma, por desagradável que seja a adaptação a qualquer mudança que mexa com os nossos hábitos de escrita.