Comemoram-se os 100 anos da morte de Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Comemorar aqui não significa festejar — que Machado não é santo —, mas lembrar com, lembrar em conjunto.

Nessa memória de Machado, sinto necessidade de recordar alguns pontos importantes de sua obra: ela é brasileiríssima, mesmo sem falar de papagaios, coqueiros e mulheres sensuais, porque mostra um Brasil — melhor dizendo até — um Rio de Janeiro, do século XIX, e é ao mesmo tempo universal; os tempos mudaram, outros são os costumes, mas a alma humana, se principal objecto, faz que continue actual.

E como lembrar é trazer à tona, tirar do esquecimento, tornar presente, nada melhor que um dos contos-teoria daquele que foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras — a Teoria do Medalhão.

Não poderiam ser mais actuais as observações do pai de Janjão. A notabilidade continua importante, qualquer que seja a profissão escolhida. E a aparência física o primeiro passo para que alguém seja considerado ALGUÉM. Procure no seu dia-a-dia, no seu local de trabalho, entre os seus conhecidos. Não encontrará quem jogue voltarete, whist ou dominó. Mas talvez ache quem jogue bilhar ou qualquer outro jogo one não há dispêndio físico nem psíquico.

Também continuam importantes na construção desta máscara social o mostrar-se e a palavra vazia, isto é, o vocabulário «tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim…», o clichê (onde cabem algumas frases feitas, agora talvez não mais latinas), forma de «pensar o pensado».

A terminologia científica, o discurso político, a filosofia, devem continuar a reduzir-se à palavra repetida, não reflectida, não própria, pois a sociedade não toleraria o que a tirasse do marasmo. «Condeno a aplicação, louvo a denominação», diz o pai a Janjão. Em outras palavras — Verba non res — invertendo o clichê.

E tudo isso deve vir envolto em publicidade, disfarçada, que divulgue a pessoa em pequenos círculos, além de outra, de âmbito mais largo, mais dispendiosa, que passa pelos jornais.

A teoria do medalhão, no entanto, é falaciosa: a ironia, traço que o medalhão não deve possuir, pois leva a pensar, é exactamente o recurso utilizado por Machado para expor suas ideias, transformando-as, assim, em crítica à palavra autoritária sobre a qual se erige o poder. A ironia, que corrói, é, aliás, um recurso machadiano por excelência e está relacionada com a derrisão e o nihilismo do escritor.

Se quiser saber mais sobre Machado de Assis e sobre as comemorações que a Academia Brasileira de Letras vem organizando em torno do centenário de sua morte, consulte: http://www.machadodeassis.org.br/

No site do Ministério da Educação da Educação do Brasil, pode ver um importante documentário recente sobre o autor: Machado de Assis-Um Mestre na Periferia.

 

Maria Aparecida Ribeiro