Em tempos tivemos uma língua que era nossa. Entendíamos essa posse como rectangular, pequenina e ciosamente a guardávamos como pé-de-meia cultural. Depois veio a expansão, que continua a alimentar sonhos, sejam eles de lugares, poderes, saberes ou vãs glórias de mandar. Nesse mundo demasiado grande para nós, o Português cresceu, fugiu, tornou-se outro e tornou-se de outros. Partilhamos hoje a língua com gente que não conhecemos e que nos coloca fora das quatro linhas porque nem sabe se existimos ou onde existimos. Comunicamos então com esses outros? Comunicam eles connosco? Ou usam a língua que já é deles sem nos pedir licença? E licença seria necessária?

O recente Acordo Ortográfico diz que nim, Mia Couto diz que não, eu digo que tanto faz. Talvez nem seja assim tão importante o poder de um novo colonialismo linguístico. Talvez seja mais importante namorar a língua, dançar a língua e perceber que o seu uso por outrem não é propriedade, antes diálogo intercultural, afinal o centro afectivo da Lusofonia. O que acham?

 

Joana Vieira dos Santos