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Do recente livro de Carlos Fiolhais, Engenho Luso e outras crónicas, algumas palavras que deveriam ser auto-evidentes para quem se relaciona com a universidade: professores, estudantes (e pais), administradores, governantes. Infelizmente não é isso que sucede, e em boa medida porque vigora hoje no espaço público, a propósito da universidade, uma chantagem a que a própria universidade dá guarida ao ceder a visões instrumentais e cegamente profissionalizantes dos cursos que oferece.

 

Vou ser claro: as universidades, descontados alguns cursos especiais, não são escolas de formação profissional e o diploma de licenciatura ou mestrado ou de doutoramento não pode ser a chave que abre logo a porta de um posto de trabalho. Uma universidade não é uma escola de hotelaria que forma cozinheiros (profissão muito necessária e pela qual tenho a maior admiração e respeito), que vão logo cozinhar para o hotel. É um sítio onde se transmitem conhecimentos ao mais alto nível, assim como as atitudes para os receber e criar. A criação de conhecimentos é essencial à sua transmissão. Sem ela, transmitir-se-ão conhecimentos em segunda ou terceira mão, requentados, que pouco valem em comparação com os conhecimentos novos. É bom que as universidades olhem para a empregabilidade dos seus cursos – deviam olhar bastante mais! – mas essa visão não pode ser única nem míope na organização dos cursos. Um cidadão deve ter a possibilidade de fazer Estudos Clássicos ou Filosofia, mesmo que, olhando para o mercado de trabalho, veja que os especialistas em grego e em epistemologia não têm pleno emprego nas respectivas áreas. (pp. 93-94)

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