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João Guimarães Rosa, cujo centenário de nascimento é comemorado neste ano de 2008, representa um exemplo excelente de recepção do texto literário no espaço lusófono — e não só. Mia Couto, já presente neste blogue, tem a palavra e explica o porquê da produtividade do texto roseano:

 

Primeiro tenho que falar de Luandino Vieira, o escritor angolano, que é o primeiro contato que eu tenho com alguém que escreve um português que é arrevesado, que está misturado com a terra. E Luandino marcou-me muito. Foi o primeiro sinal da autorização de como eu queria fazer.

Eu sabia que eu queria fazer isso, mas eu precisava de uma credencial do mais velho que disse “esse caminho é abençoado”. E ele confessa que foi autorizado, também ele, por um outro, um tal João Guimarães Rosa que eu não conhecia, porque não chegavam aqui estes livros. Depois da Independência deixaram de chegar livros do Brasil e é uma coisa irónica, do ponto de vista histórico.

Houve mais cruzamentos e trocas de livros no tempo colonial e fascista do que depois da Independência. Então, eu tinha este fascínio. Eu tinha que conhecer este João, este tal Rosa. E um amigo meu trouxe as Terceiras Histórias. E de facto foi uma paixão. Foi de novo alguém que dizia „isto pode-se fazer literariamente”. Mas […] eu já queria fazer isto, porque já estava contaminado primeiro por este processo que não é literário, é um processo social das pessoas que vêm de outra cultura, pegam o português, renovam aquilo, tornam a coisa plástica e fazem do português o que querem.

Mas a recepção de Rosa continua. Traduzida na França, Itália, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Polónia, Holanda, Checoslováquia e Japão, sua obra vem dando frutos. Os mais recentes são ter servido de epígrafe ao premiado Cinzas do Norte, de Milton Hatoum, e haver ecoado, na opinião de Vasco Graça Moura (voto, durante o Prémio José Saramago), no também galardoado o remorso de baltazar serapião de valter hugo mãe.

Em comemoração do centenário de nascimento de Guimarães Rosa, o Instituto de Estudos Brasileiros promove, no próximo dia 12 de Novembro, às 18 horas, uma mesa-redonda, com as seguintes intervenções:

 

Travessias geográficas e sentimentais pelo Gande Sertão: Veredas – Maria Rosa Alvarez Sellers (U. de Valencia)

A força e o poder em Famigerado, de João Guimarães Rosa – Vania Chaves (U. de Lisboa)

Guimarães Rosa: a permanência da tradição – Beatriz Weigert (U. de Évora)

Mário Dionísio e a candidatura de Guimarães Rosa ao ‘Prémio Internacional de Literatura’, de 1963 – João Marques Lopes (doutorando, U. de Lisboa)

 

Maria Aparecida Ribeiro