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(sobre o Acordo Ortográfico, a propósito do «desafio» lançado por Joana Vieira dos Santos)

A Bíblia conta-nos sobre a construção de uma grande torre na Babilónia, que permitiria ao Homem chegar ao céu para ser como Deus. Mas Deus, querendo conservar a sua hegemonia como ser celeste, fez com que cada um dos construtores da torre falasse uma língua diferente. Como não conseguiam comunicar entre si não puderam continuar o projecto, e dispersaram-se pelo mundo. Assim se explica, na forma de mito, a existência das diferentes línguas do mundo.

Hoje, no vasto espaço onde se fala Português, é visível uma espécie de «síndroma de Babel». Um exemplo disso é a dificuldade que um brasileiro tantas vezes enfrenta para entender um português («Oi?»). A Língua é a mesma, na forma de duas das suas variantes, mas algo mais do que o Oceano Atlântico as separa: variações fonológicas, que causam, amiúde, um feedback comunicacional.

E eis que se torna a colocar na mesa a plataforma de aproximação linguística e cultural entre os países – um novo Acordo Ortográfico. Propõe-se que a ortografia se torne homogénea nos países de Língua Portuguesa. Que, para aproximar a realização gráfica da realidade fonética da língua, a palavra acção passe a ser escrita como ação.

Colonialismo linguístico? Talvez. Não é inocente que o acordo seja feito neste momento. Ninguém duvide que razões económicas, mais do que culturais, movam este processo. A CPLP é uma organização recente que desde o primeiro momento percebeu que é fundamental uma Língua comum para uma verdadeira projecção internacional. É preciso que todos falem a mesma língua, se queremos construir uma torre que chegue aos céus.

Só que as Línguas são instituições muito bem vigiadas. Para garantir o respeito pelo seu património histórico-cultural, ou por outros motivos, aparece sempre uma polícia pronta a defendê-las.

Veja-se o Acordo Ortográfico de 1911. Foi mais radical do que este que agora é proposto. Eliminou boa parte das grafias etimológicas que ainda existiam, substituindo-as por grafemas mais próximos dos fonemas. Foi quando pharmácia passou a ser escrito como actualmente: farmácia.

Falou-se de desrespeito científico. Nomeadamente porque o acordo passou ao largo de alguns aspectos fonológicos do Português do Brasil, o que desencadeou uma acesa polémica linguística entre os dois países, até hoje.

Mas grande parte das reacções foram mais frívolas, tal como são hoje banais muitos dos argumentos contra o Acordo. Teixeira de Pascoaes, por exemplo, manifestava a seguinte preocupação:

 

Na palavra lagryma, (…) a forma do y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão gráfica ou plástica e a sua expressão psicológica; substituindo-lhe o y pelo i é ofender as regras da Estética. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério… Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal.

Com o maior respeito pela figura, parecem-me pormenores de somenos… Mas veja-se Fernando Pessoa. Referiu concordar com as mudanças, embora tenha continuado a escrever de acordo com a ortografia pré 1911.

O mesmo se passou com tantos daquele tempo e vai também passar-se com tantos (todos?) de nós agora, que falamos e escrevemos em Português. Só gradualmente é que «revoluções» como esta são plenamente absorvidas pelas comunidades – e logo uma tão vasta e variada como a nossa. Lá chegaremos; mas não vai ser da noite para o dia.

Não estou contra nem a favor do acordo. Tal como a Joana Vieira dos Santos, tanto me faz. Penso que é muito mais estimulante desfrutar da variedade do Português do que forçar, ou mesmo simular, uma aproximação. Sem dúvida que somos uma comunidade unida por uma Língua comum. Mas, como em qualquer outra comunidade, aquilo que nos une é tão importante como o que nos separa. A expansão ultramarina originou variantes da Língua que se tornaram muito ricas e merecedoras de respeito. E Literaturas como a de Mia Couto, a propor-nos constantes rupturas com a Norma, e criações semânticas inesperadas que surgem através dessa «dança» da Língua. Não me parece que haja Acordo que venha a cessar esta dança. Muito menos a Normalizá-la.

 

Bruno Fontes
Estudante da Licenciatura em EPL