africa

África é um continente riquíssimo de povos (mais de 2.000, segundo alguns), línguas (mais de 2.000, segundo muitos), religiões, contrastes geográficos, história praticamente desconhecida em tantos pontos geográficos, sociais ou temporais, matérias-primas cobiçadas, cenário de tráfico de escravos, palco de calamidades, guerras civis, genocídios, doenças antigas e não erradicadas, grandezas sumptuosas (existiram imperadores, nos séculos XIII-XV, que ofereciam jantares para mais de 10 mil convidados!), capacidades de mudança e criação incomuns, paisagens deslumbrantes e muita, muita solidariedade, afabilidade e compaixão.

Já pensaram que um criador de gado ou um lavrador da savana da Costa Ocidental de África pode ser tão poliglota como um cidadão do Ocidente? Pode falar a língua materna, por exemplo, o oulouf, do Senegal, mais o árabe, por via da religião muçulmana, uma outra língua sudanesa, por exemplo, o serere, por estar em contacto com o povo vizinho, mais o francês, língua do tempo colonial e do novo estado independente. Se o cidadão africano deixar de ser agricultor e emigrar, poderá aprender o inglês e, se vier para Portugal, o português. Não está ao alcance de todos, mas acontece mais do que as pessoas supõem. Se alguém pensar, por preconceito, que, por ser europeu, é mais culto, mais sensível, mais cosmopolita ou melhor do que um AFRICANO ou um NEGRO, pode nunca conseguir sequer supor que na baliza de um clube de futebol europeu esteja um príncipe da sua tribo ou mesmo da sua etnia. Já defendeu as redes do Boavista (clube da cidade do Porto) o africano William, príncipe na sua terra, que, aliás, a família não gostava de ver jogar futebol por achar não ser actividade apropriada para ele.

Sabe quem é o povo dogon, cujo sábio Ogotemmeli conversou com o francês Marcel Griaule e lhe explicou a sua concepção (da criação) do mundo, através da comparação com o celeiro onde se armazenam os grãos, mostrando como o sangue, a linfa, a palavra, o esperma são forças, são fluidos, são elementos que organizam (de cuja percepção organizada podemos entender melhor) o mundo?

Pode uma criança nascida em Portugal, branca, filha de pais portugueses, criada em África, desde tenra idade, que adoptou a nacionalidade de um país africano e por ele deu parte da sua vida à luta de libertação nacional, tornar-se um grande escritor africano? Sim: o angolano José Luandino Vieira. Não levou o nome “Luandino” quando nasceu, mas adoptou-o como semi-pseudónimo e, depois, na altura da independência de Angola, integrou-o legalmente como nome próprio. Interessante, não é?

Num continente em que, no século XX, existiu uma baixa alfabetização, o poder político, social e cultural estando nas mãos dos homens, poderia uma mulher negra afrontar a ordem estabelecida, tornando-se escritora, defendendo e ajudando a explicar as vivências e a condição de vida das mulheres de uma região? Sim: a moçambicana Paulina Chiziane. Já imaginou o quanto terá sido difícil o percurso dessa corajosa mulher, escritora moçambicana?

Já agora, pode-se perguntar: quantas mulheres negras sabiam escrever, no tempo colonial? Ser escritor angolano ou cabo-verdiano em português não será diminuir a influência cultural de outras línguas africanas que não têm tradição de escrita? A África vive essa conjuntura de as elites culturais escreverem nas línguas oficiais (adoptadas da colonização, para cimentarem a coesão do Estado e servirem de línguas de comunicação entre etnias e de comunicação com o exterior) e deixarem em stand by, quanto à escrita, as línguas ancestrais africanas. Os povos continuam a falar, no quotidiano imediato das suas necessidades íntimas e locais, familiares, de vizinhança, essas línguas originárias do continente.

 

Pires Laranjeira