escola

A forma como os pormenores de gestão de conflitos podem influenciar de maneira vital uma aula é surpreendentemente impressionante para um principiante. As escassas semanas de trabalho que tenho nesta profissão já foram suficientes para perceber que, de facto, a capacidade de gerir eficazmente uma sala de aula é uma das mais importantes competências que um professor deve procurar adquirir. Dois episódios ocorridos há dias nas Escolas do 1º. Ciclo de Paço e Botão (onde lecciono Inglês no âmbito das actividades de enriquecimento curricular) provam isso mesmo.

Com o aproximar do final da unidade «Face», decidi realizar uma aula de carácter prático que ao mesmo tempo motivasse os alunos e servisse de revisão aos conteúdos abordados nas duas últimas semanas. Previamente, pedi aos alunos que recolhessem da imprensa um retrato de um dos seus ídolos. Na sala, era pretendido que estes legendassem a imagem de acordo com os conteúdos aprendidos e, em seguida, descrevessem em público as feições do ídolo que haviam escolhido.

Se em teoria a aula parecia de clara execução, na prática os resultados não foram tão exequíveis quanto eu gostaria.

Na escola de Botão, o facto de dois terços dos alunos não terem trazido o material necessário foi, desde o início, um sinal premonitório do que iria ocorrer. Em parte, este facto deveu-se a uma falha minha. Habituado do ano de estágio a lidar com adolescentes de treze e catorze anos, não previ que a semântica da palavra «ídolo» era ainda inacessível para um determinado número de alunos. Como resultado, grande parte deles não cumpriu a actividade prévia de recolha do material. No entanto, à precaução, fui para a aula munido de jornais e revistas variados modo a que ninguém ficasse sem «matéria-prima».

Como se adivinha, não foi (só) por aqui que a aula falhou. Tratava-se de uma actividade de pares. Para que funcionasse, os alunos do 1.º e 2.º anos necessitavam da ajuda dos colegas mais velhos dos 3.º e 4.º anos.
Das experiências decorrentes de anteriores actividades de pares, sabia de antemão da resistência que grande parte dos alunos tinha em trabalhar com certos colegas. De qualquer modo, até à data, a minha opção tinha sido a de driblar esta questão colocando os alunos menos integrados a trabalhar com colegas cujo espírito é menos contestatário. No entanto, sabia que o conflito tinha de ser provocado sob pena de os referidos alunos se sentirem cada vez menos integrados na turma. Para além disso, pretendia ainda transmitir aos alunos a ideia de colaboração tendo em vista um fim comum – a aprendizagem. Não gostar de brincar com um colega no recreio não é justificação para recusar trabalhar com ele na sala. Por essa razão, resolvi que os referidos alunos iriam, nesse dia, trabalhar com duas das alunas cujo feitio é menos resignado.

A primeira e previsível reacção foi de recusa. As alunas recusaram-se a trabalhar com os colegas. Até aqui, nada de surpreendente. Tal como tinha planeado, resolvi explicar a necessidade de saber separar a amizade com a colaboração em sala de aula. E se a grande maioria dos alunos parecia compreender os meus argumentos, as duas alunas em causa elevavam o tom dos seus protestos e recusavam ainda com mais veemência. Gerou-se então um daqueles momentos de conflito em que as decisões urgem. Sob pressão, optei pelo mais simples e impus, pela ameaça, que os grupos funcionassem tal como estavam. A «pena» seria a perda da estrela dourada com que se reforçam os alunos que têm bom comportamento. Ainda assim, uma das alunas desafiou: «Tire-me a estrela e se quiser dê-me um teste» (a «pena capital» que até à data ainda não foi utilizada). Meio assustado, confesso, fingi não ouvir e prossegui a aula. Como se não bastasse, muitas crianças resolveram ainda recusar partilhar o material que alguns tinham em excesso com os colegas que não o tinham na sua totalidade.

O resultado é previsível. A aula prosseguiu num ambiente de repressão sem que pudesse ser aproveitada de forma minimamente eficaz. Três alunos chegaram mesmo a perder a «estrela dourada», não porque o seu comportamento fosse mau a esse ponto, mas devido à pouca tolerância que as situações anteriores haviam provocado no professor.

Mesmo a medo, resolvi contemplar a aula que tinha planeado com mais uma oportunidade.

Ciente da atrevida decisão que havia tomado (levar a cabo um plano que há poucos minutos falhara redondamente), iniciei a minha aula em Paço alertando os alunos para o carácter crucial da aula que exigia de todos a máxima colaboração. Mencionei ainda a incapacidade dos alunos do Botão no aproveitamento das várias actividades – facto que provocou positivamente os alunos de Paço (rivais dos outros em jogos desportivos e outras coisas mais). Arrastados pela vontade de fazer melhor que os colegas da outra escola, os alunos não só aceitaram trabalhar com quem menos gostavam como criaram um ambiente saudável de entreajuda muito propício à aprendizagem.

Não sei se por sorte de principiante, a aula de Paço foi a última do dia, o que evitou que levasse para casa aquele sentimento de frustração que todos os professores conhecem. Ao invés, experimentei a também conhecida sensação inocente (contudo comum e (talvez) necessária entre professores) de que estamos a mudar o mundo.

Com o resfriar do ânimo veio uma lição: a gestão dos conflitos em sala de aula é um dos aspectos que mais tenho de ter em conta aquando da preparação das minhas aulas. Se mal gerido, um conflito pode boicotar uma aula, se bem gerido pode ser uma enzima que cataliza muitas e boas aprendizagens.

 

Daniel Salvador Joana
Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Ingleses) e estudante do curso de pós-graduação em Literatura Portuguesa: Investigação e Ensino