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Um dos momentos-chave do filme A Turma (Laurent Cantet, 2008) encontra-se na cena em que, repreendida a turma por não fazer a distinção entre o registo escrito e o oral nos seus textos, a aluna pergunta ao professor: “Como é que sabemos quando usar um ou o outro?”. O professor parece surpreendido com a obviedade da pergunta, como se esta não fosse realmente necessária: “É uma questão de intuição”. Acontece que a intuição, ao contrário do que se infere do discurso do professor, não é uma condição natural. A vida daqueles miúdos, que vivem a 30 minutos de Paris e nunca lá puseram os pés, não lhes confere “naturalmente” essa intuição. Sabem que existe aquela a que chamam “a linguagem dos burgueses”, mas não lhes pertence, a deles é a MTV e a Playstation. Aquilo que eles são, a vida deles, não é compatível com o discurso escrito, com a escola. E a escola não pode substituir-se à vida deles, não pode ensinar-lhes aquilo que deveriam ser, por “intuição”. E assim, professor e alunos são reféns de um desencontro que talvez não possam e não lhes caiba resolver. A última cena do filme – a sala de aulas vazia, as cadeiras tombadas e o silêncio a tomar conta de tudo – parece querer dizer-nos que a trégua tem que ser procurada algures lá fora, do outro lado dos muros.

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Ana Bela Almeida
Ex-aluna de Estudos Portugueses na FLUC, leitora de Português em Santa Barbara (Califórnia), Vigo e Corunha, prepara doutoramento a apresentar à Universidade da Corunha.