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Estava eu a reler um texto de Sílvio Elia sobre A língua portuguesa no mundo, de que o Instituto Camões disponibiliza um excerto na sua página, e a perceber por que motivo somos lusófonos desanimados, quando me cai em cima do portátil a contradição flagrante de tal desânimo: a notícia de que a nossa língua representa 17% do PIB.

Chamo desânimo à ideia de uma crise que tomou conta do ensino e da aprendizagem do Português, na sua variante mais repelente: a de que em pouco morreremos por falta de clientela. Não pude deixar de o evocar perante o texto de Elia, em que o espaço geolinguístico do Português aparece como uma unidade que se subdivide em cinco «faces», as suas cinco primeiras «variedades» (em sentido empírico): a Lusitânia Antiga (Portugal, Madeira, Açores), a Lusitânia Nova (Brasil), a Lusitânia Novíssima (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Príncipe), a Lusitânia Perdida (na Ásia) e a Lusitânia Dispersa (as comunidades migrantes espalhadas pelo mundo).

Numa perspectiva cronológica – o artigo é de 1989 – compreende-se que assim seja: o país que é hoje Timor não existia, pouco ou nenhum conhecimento haveria sobre as comunidades migrantes (pelo menos no sentido massificado e mediático que se dá hoje à palavra «conhecimento») e, na falta de qualquer outro critério, a data de nascimento dos Estados serviria para classificar as faces da Lusofonia. Outra é a realidade de hoje, quase vinte anos passados, mas creio que estas identidades ainda perduram. Parece-me que, se desanimados estamos, é porque continuamos a ver-nos como uma língua velha, perdida e dispersa.

Portugal assume-se assim como o velho avô que poucos escutam porque, muito francamente, ninguém tem paciência para as suas histórias. Por contraste, as nações brasileira e africanas aparecem como grandes estados pujantes e plenos de força, a que se junta um bebé despontando lá longe, mais ou menos no sítio onde o vento vira… perdão! onde o sol desponta.

Ora, por reacção ou obra do destino, eis que o mesmo Instituto disponibiliza noutro lugar a informação sobre um estudo encomendado ao ISCTE sobre o Valor Económico do Português (assim mesmo, com maiúscula!) em Setembro de 2007. Segundo os resultados preliminares, divulgados a 13 de Novembro na palestra Uma Abordagem Ecléctica do Valor da Língua: O Uso Global do Português, do professor e investigador José Paulo Esperança, integrada na 6ª conferência anual da Federação Europeia das Instituições Nacionais para a Língua (EFNIL), o Português representa assim 17% do PIB, o que não é peso de somenos.

Como traduzir em valores o que falamos? Segundo Esperança, o valor económico de uma língua está associado ao peso relativo das actividades que a implicam – o sector dos serviços, por exemplo, será responsável por uma boa parte da sua importância. Além disso, o facto de ser uma língua muito falada no mundo cria o que o investigador chama “efeito de rede”: todos querem falar o que muitos falam, tal como todos querem beneficiar das vantagens que um idioma muito conhecido lhes poderá trazer. E falta ainda contabilizar os benefícios internacionais do uso do Português, bem como o efeito de “mais-valia” associado à notoriedade de portugueses com projecção internacional. Eu diria que a Marisa projecta mais do que o Ronaldo, porque canta, resta saber se o Ronaldo não projecta mais longe.

Em todo o caso, isso é o que menos interessa. Fazia falta que alguém traduzisse em quantificadores económicos o peso da língua portuguesa, a ver se ganhamos outro ânimo. Vale a pena ler o curto texto, sem esquecer que ainda faltam outros resultados, que aguardo com impaciência.

 

Joana Vieira Santos