Dezembro 2008


rabanadas

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A escola veste-se da gala para receber a desejada festa de Natal. Durante uma tarde, professores e alunos esquecem os cadernos, as canetas, os livros, os verbos, as contas, as regras… Durante uma tarde, canta-se, dança-se, recita-se, mostra-se à comunidade um pouco da vida entre muros. É um dos únicos dias em que a escola se abre verdadeiramente ao «mundo». Pais e amigos vêm à escola. Com visível ar de nostalgia, convivem uns com os outros e recordam, por instantes, os momentos que há 20/30 anos viveram ali, naquelas cadeiras que agora parecem tão pequenas. É a altura de falar com os professores: «Como se porta o meu filho?» – palavras de circunstância que convém não esquecer num dia como este.

Após ouvir colegas, pais e alunos desejarem-me um bom Natal, quando me preparava para fazer a viajem de regresso a casa, por breves momentos detive-me a contemplar uma imagem que me pareceu assaz sugestiva. Felizes, com as enormes mochilas às costas, as crianças seguiam sorridentes para férias, rodeadas dos pais, irmãos e amigos que, naquela situação, pareciam vir «resgatar» as crianças para si. Não liguei o motor do carro senão quando os vi desaparecer por entre o escuro da noite que já havia caído. Na viagem para casa reflecti sobre aquela imagem. As conclusões foram curiosas.

A imagem do «resgate» fez-me compreender que a escola é um lugar de passagem cuja influência na vida daquelas crianças é, apesar de tudo, bastante limitada. Mais tarde ou mais cedo, os alunos serão todos «resgatados». Nas férias, depois de nove anos, doze, ou mesmo ao fim de dezassete ou dezoito anos, a sociedade «resgata» sempre os seus filhos. A sua influência na vida das crianças (ainda para mais a sociedade mediatizada como a nossa) vai ser incomparavelmente maior do que a da escola.

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A domesticidade constitui em Setecentos um dos lugares simbólicos na dignificação do verso efémero, uma vez que conjuga o sentido moderno da intimidade com a vida material que definirá o conforto emergente. Por esta altura, a percepção do conforto adquire o carácter de satisfação auto-consciente que vem a dominar a sua acepção moderna, na sequência de mutações ocorridas tanto no plano psico-social, como especificamente no âmbito da cultura material (*). O versejador lusitano que melhor expõe este encontro localmente, no instante crítico em que se cruza com o mimetismo proto-doméstico do retiro bucólico, é sem dúvida alguma Correia Garção. Comecemos no entanto com um curioso soneto do Abade de Jazente, porque ele nos permite situar a cena doméstica e desenhar com alguma precisão as suas fronteiras no âmbito da totalidade efémera aqui em causa. Eis um retrato setecentista da vida como ela “foi”, para quem rememora no soneto em causa:

 

Ora a pesca, ora o jogo, ora o passeio,
Ora da França um livro me entretinha,
E ora na casa alheia, ora na minha
Dos amigos lograva o doce enleio.

Ora a pintada truta, ora o recheio,
Ora a gorda perdiz na mesa eu tinha;
Sustentava cavalos, cães mantinha,
E via o pátio meu de pobres cheio.

Ora talvez das Musas no regaço
Cantava com cadente suavidade,
Fazendo alguma delas o compasso:

Mas tudo enfim lá vai; foi com a idade:
E somente (que tristes versos faço!)
Me ficam as lembranças, e a saudade.

Neste mundo que o autor pinta com mão efémera, abarcando as diversas esferas de uma vida, é sobretudo no espaço doméstico que a apreciação dos prazeres se pode tornar mais intensa, mormente para um espírito letrado. A domesticidade agrega a vida afectiva e sensorial do sujeito, na sua dimensão familiar, libidinal (tudo leva a crer que também no caso deste Abade tal faria parte da casa), e na convivialidade electiva com os amigos e com os livros. O tom elegíaco do soneto dramatiza a perda iminente destas “coisas” prazenteiras, até porque a descrição destaca a boa vida de um Abade em finais de Setecentos, suficientemente farto quanto a moeda para ter o «pátio» (não o templo, note-se) de «pobres cheio».

 

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Sobre Fernando Matos Oliveira, docente da FLUC com actividade repartida pelos cursos de Línguas e Literaturas e Estudos Artísticos, já aqui falámos aquando do seu recente doutoramento. Referimo-nos de novo ao nosso colega para anunciar a abertura da sua coluna setecentista neste blogue, com o título «Poetas e Versejadores». Tratando-se de um dos grandes, e raros, especialistas na literatura portuguesa desse período – que, no seu caso, vai do tardo-Setecentos até ao primeiro quartel de Oitocentos – esta é uma «contratação» que reforça claramente o plantel da nossa equipa, para lá de diversificar ainda mais a oferta deste blogue.

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Na próxima quinta-feira, dia 18 de Dezembro, pelas 18 h, na sala do CLP, no 7º piso da FLUC, Pires Laranjeira, docente de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, fará uma conferência subordinada ao título «Estudos Portugueses e Lusófonos. Valor Matricial no País e Estratégico no Mundo».

Na conferência, integrada nas actividades do Clube de Estudos Lusófonos, Pires Laranjeira abordará a situação actual dos estudos portugueses e lusófonos, bem como o seu valor identitário e estratégico para Portugal; e fará ainda algumas propostas de teor institucional e pedagógico. Razões mais do que suficientes para ir ouvir o autor.

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De Robert Fisk, famoso correspondente no Médio Oriente do The Times, primeiro, e do The Independent, depois, acaba de ser editado em Portugal A Grande Guerra pela Civilização. A Conquista do Médio Oriente. Fisk é uma lenda viva no jornalismo internacional, há 30 anos a viver no Líbano e a escrever sobre a região, a que dedicou já duas obras monumentais: esta muito recente e, antes, em 1990, Pity the Nation – Lebanon at War. Pelo seu trabalho foi-lhe atribuído por sete vezes o prémio International Reporter of the Year, dos British Press Awards, e por duas vezes o mais famoso prémio do jornalismo inglês: Journalist of the Year. Fisk esteve em Portugal durante a revolução de 1974, mesmo antes de ser convidado a desempenhar o cargo de corresponde do Times no Médio Oriente. Entrevistado pelo suplemento cultural do Público, Ípsilon, na edição de 5/12/08, o autor mostrou como uma sólida formação em Humanidades o preparou para aquilo que veio a ser. Como se pode ler aqui, Fisk licenciou-se em Literatura Inglesa, na Universidade de Lancaster, em 1968 (viria a doutorar-se em Ciência Política, pelo Trinity College, de Dublin, mais tarde, em 1985).

Permitimo-nos transcrever, a este propósito, partes da entrevista de Margarida Santos Lopes a Robert Fisk:

 

Ainda sabe falar e ler português?
Posso ler português facilmente, porque fiz o meu primeiro curso em latim e linguística. Quando estive no Brasil, o ano passado, achei muito fácil a leitura do jornal Folha de S. Paulo. Posso entender bem a língua portuguesa – falada não, mas escrita. Também consigo ler esse magnífico porta que vocês têm, Pessoa, apenas porque sei latim.
Tem livros de Fernando Pessoa?
Sim…
Quais?
Agora, não me lembro dos títulos. São colectâneas de poemas. Quando estava na Irlanda do Norte [a fazer a cobertura dos ‘Troubles’, o conflito entre republicanos e lealistas da Coroa britânica], fui enviado para Portugal para fazer reportagens sobre o pós-revolução de Abril. Quando abria os jornais da manhã – oh, e naquela altura havia tantos jornais da manhã! -, eu conseguia lê-los sem grande dificuldade, embora com a ajuda de um dicionário.
(…)
Quando não está em reportagem, disse que gosta de ler poesia, sobretudo a de W. H. Auden. E mais?
Estou a ter lições de violino, que eu tocava muito bem. Vou a concertos. Vou ao cinema. Saio com os meus amigos. Falamos de música, de livros e de arte. Viajo muito, para dar palestras. Acabei de regressar de Bolonha. Onde quer que vá, gosto de ver pintura. Tenho uma coluna onde posso escrever sobre tudo, e muitas vezes nem sequer é sobre o Médio Oriente. Agora estou a  escrever sobre [o grande poeta irlandês] Yeats.

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Não é um filme, mas antes (primeira diferença significativa) um clip: uma sucessão vertiginosa de imagens/planos, um concentrado de informação. Mas é também, nessa vertigem, a aceleração temporal que se apoderou da questão da informação nas últimas décadas. Nesse sentido, é um clip muito pedagógico, uma vez que começa naquele tempo em que pesquisar informação implicava um ficheiro físico que remetia para um livro numa estante: um mundo em que a informação era uma «coisa» material e a sua indexação respondia a um modelo físico em que tudo se arruma como as coisas se arrumam, ocupando e saturando o espaço.

Depois… Bom, depois chegou o digital e a dificuldade de «traduzir» as categorias físicas herdadas de uma tradição de séculos. «Ficheiro», «biblioteca», por exemplo, passaram a funcionar como, digamos, figuras de retórica, palavras a usar entre aspas, uma vez que as realidades já não coincidiam (embora mantivessem algumas analogias significativas). E surgiram novas realidades, a exigir novas categorias e novas palavras. Pode parecer estranho, mas houve quem achasse que a internet seria um logro; e, depois, começou o problema do «mapeamento» e do controlo da internet. Mas também a autoria colectiva dos sítios e obras nela disponíveis, em realizações como a Wikipédia e outras.

O mundo mudou, pois. E nada como este clip para o percebermos e para percebermos a vertigem dessa mudança. O facto de ele nos chegar em inglês, e de o inglês ser ao mesmo tempo a língua da internet e da revolução digital, ajudam também a perceber a dimensão política do que está em jogo nesta mudança e que, por exemplo, não nos permite (ainda…) criar endereços na net com cedilha ou til. Por exemplo, não nos permitiu que o endereço deste blogue fosse nãotácansado.wordpress.com

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