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Quando um professor de Português Língua Estrangeira (PLE) trabalha fora do território nacional, com alunos que nunca ouviram português e que têm do mundo lusófono escassos dados culturais e noções geográficas aproximativas, coloca-se com maior acuidade a questão dos conteúdos da disciplina. O que se deve ensinar numa aula de Português? A resposta imediata e evidente é “a língua portuguesa”. Alguns segundos depois, no entanto, qualquer professor de PLE originário de Portugal será tentado a acrescentar “e a cultura portuguesa” (sendo que, com boa vontade e ambição, alguns desses professores dirão ainda “e a cultura lusófona”).

Recentemente pude assistir a um colóquio sobre Ensino do Português e das Culturas de Expressão Portuguesa, organizado pelos leitores de português do Instituto Camões em Paris, que decorreu a 30 e 31 de Outubro na Universidade de Paris 8 Vincennes-Saint-Denis. Um dos aspectos que nesse colóquio obteve maior consensualidade foi o da impossibilidade de ensinar língua sem veicular cultura. Deste postulado infere-se geralmente, no entanto, algo ligeiramente diferente – que quando se ensina língua se deve também “ensinar cultura”. Aliás, a tradição francesa quer que o processo de aprendizagem de uma língua estrangeira compreenda langue e civilisation, cabendo neste último termo áreas díspares como a história, a geografia, os costumes de um povo e as realizações artísticas mais relevantes de uma cultura. Em suma, o processo de aprendizagem do italiano, por exemplo, implica a familiarização com os feitos de Garibaldi, a capacidade de localizar no mapa os Apeninos, o conhecimento dos nomes dos vários tipos de massa e a contemplação de O Nascimento de Vénus.

Curiosamente, a melhor intervenção do colóquio, de Martine Abdallah-Pretceille, punha em evidência que já não é possível actualmente, no contexto de ensino de uma língua estrangeira, insistir na abordagem descritiva de uma cultura nacional, na ideia de que esta constituiria como que um bloco isolado e delimitado, alheio à complexidade das relações sociais que caracterizam a contemporaneidade. Segundo as suas palavras, “em situação de pluralidade cultural, são sobretudo os fragmentos culturais que são significativos e menos as culturas na sua globalidade”, isto é, cada vez mais, no mundo contemporâneo, os indivíduos constroem a sua identidade pela apropriação de traços culturais que são transversais e móveis e definem-se cada vez menos pela pertença a uma cultura estanque e herdada.

Ora, evidentemente Abdallah-Pretceille não está com isto a dizer que as línguas existem como entidades sem ligação ao território em que se formaram e aos povos que as falam. Quando numa sala de aula se ensina o português como língua estrangeira há uma série de referentes culturais a que somos obrigados a atender. Um bom exemplo é a complexa questão das formas de tratamento em português europeu, que reflectem uma não menos complexa realidade nacional, bastante diferente da realidade brasileira. Para um aprendente do português europeu, um uso adequado das formas de tratamento pressupõe a compreensão da realidade em que esse uso se insere (já se esse aprendente se deslocar ao Brasil, compreenderá que a realidade é outra). Uma língua veicula, pois, uma cultura ligada a uma realidade territorial, uma cultura nacional, e não se pode ignorar essa herança. Todavia, e esse parece-me ser o aspecto fulcral da questão, será desejável que nos limitemos a uma perspectiva essencialmente nacional da cultura no contexto do ensino de uma língua?

Qualquer professor de PLE que tenha utilizado os manuais à disposição no mercado já se deparou com os “apontamentos culturais” invariavelmente aí propostos: a tourada, as festas dos santos populares, as tradições de Natal, o fado… Se nada impede que esses aspectos sejam abordados numa aula de português, a cultura que a língua portuguesa tem capacidade de veicular não se esgota neles, felizmente. Como não se esgota no horizonte português nem no horizonte lusófono. Quero dizer que ao longo de um curso de português os alunos podem compreender melhor a viagem de Vasco da Gama à Índia ou quando se deu a independência do Brasil, localizar no mapa o rio Mondego ou aprender que Díli é a capital de Timor, saber o que é o cozido à portuguesa ou a moamba de galinha, conhecer a obra de Paula Rego ou ler a poesia de Carlos Drummond de Andrade – e que tudo isto pode caber numa aula de PLE, e que é desejável que caiba (sem se perder de vista que uma aula de língua não é um curso de história ou de literatura). Mas também que, para além desse horizonte de referentes “próprios”, isto é, da cultura de língua portuguesa, podemos trabalhar cultura em língua portuguesa. Com efeito, podemos usar o português para estabelecermos pontes com outras culturas, para debatermos temas universais ou específicos sem nos atermos forçosamente às realidades dos países de língua portuguesa, para apreciarmos realizações culturais que nada tenham a ver com o mundo lusófono, para, enfim, descobrirmos o outro.

Pensemos que, até há algumas décadas, o francês gozava em Portugal do estatuto de “língua de cultura”. Esse facto estava naturalmente ligado ao prestígio cultural que a França então detinha por toda a Europa, mas a capacidade de o francês veicular cultura não se esgotava nos “temas franceses”. Sendo a primeira língua estrangeira para os portugueses, o francês era então (e ainda é, embora a outra escala) um meio privilegiado para descobrir outras realidades, para conhecer novas ideias, para aceder à cultura em sentido lato. Assim como qualquer outra língua que hoje aprendamos pode ser uma porta de acesso a uma infinidade de experiências e de conhecimentos que não se limitam a um território físico. Se, como diz Abdallah-Pretceille, a identidade cultural de um indivíduo é cada vez mais compósita e se afirma num processo constante de construção, o português pode assumir-se, tal como qualquer outra língua, como um veículo nesse processo. A língua portuguesa pode ser uma língua de cultura, sem que nesse termo tenha de caber única e exclusivamente a cultura portuguesa ou a cultura dos países onde se fala português. Restringi-la em absoluto a esse espaço é negar-lhe o próprio estatuto de língua de cultura.

 

Gonçalo Duarte