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Na passada sexta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, teve lugar mais um seminário sobre os novos programas de Português para o Ensino Básico. No momento em que os trabalhos da equipa que prepara esses programas se aproximam do fim, é escusado chamar a atenção para a importância de que esta revisão programática se reveste. Carlos Reis, Professor Catedrático da FLUC e coordenador da equipa, leu nesse seminário um texto de que publicamos aqui um excerto decisivo. Agradecemos ao Professor Doutor Carlos Reis mais esta colaboração com o nosso blogue (a que se seguirá, em breve, outra modalidade de colaboração, na forma de uma rubrica fixa).

 

O trabalho até agora levado a cabo não se concretizou à margem de coordenadas que nele se reconhecerão de forma variavelmente explícita. Para além dessas coordenadas, foram devidamente ponderadas expectativas e circunstâncias que não podiam deixar de ser tidas em conta. Dessas expectativas e circunstâncias podem ser destacadas as seguintes:

• O ensino do Português desenrola-se hoje num cenário que apresenta diferenças substanciais, relativamente ao início dos anos 90 do século passado. Exemplo flagrante disso: a projecção, no processo de aprendizagem do idioma, das ferramentas e das linguagens facultadas pelas chamadas tecnologias da informação e da comunicação, estreitamente associadas a procedimentos de escrita e de leitura de textos electrónicos e à disseminação da Internet e das comunicações em rede.

• Nos últimos anos, foram bem audíveis vozes que reclamaram uma presença efectiva dos textos literários no ensino da língua, valorizados na sua condição de testemunhos de um legado estético e cultural. Uma tal condição não deve ser desqualificada por utilizações pedagógicas que a desvirtuem, com prejuízo da possibilidade de muitos jovens terem acesso a tais textos; por muitas dificuldades que se levantem à integração dos textos literários nos programas de Português, é obrigação da escola trabalhar para que essa integração seja inequívoca e culturalmente consequente.

• Do mesmo modo, não foram poucos os testemunhos que sublinharam a necessidade de se acentuar, no ensino do Português, uma componente de reflexão expressa sobre a língua, sistematizada em processos de conhecimento explícito do seu funcionamento e da sua gramaticalidade, sem que isso se traduza necessariamente numa artificial e rígida visão prescritiva da nossa relação com o idioma.

 

Carlos Reis