digitalizar0005

Acabam de sair as Actas da Conferência Internacional sobre o Ensino do Português, Lisboa: Min. da Educação/DGIDC, um volume que seguramente se tornará uma peça de referência na bibliografia. Do texto de apresentação do volume, da autoria de Carlos Reis, recebemos, enviado pelo autor, um excerto fundamental, que aqui transcrevemos, com um renovado agradecimento ao nosso colega. Permitimo-nos chamar a atenção para a forma como neste texto, para lá da necessária denúncia da doxa anti-humanista que hoje se abate sobre o ensino do Português em toda a sua espessura linguística, cultural e estética, se apontar já um caminho futuro de diálogo entre as Humanidades e as ciências e tecnologias, indispensável para irmos pensando as novas humanidades.

 

O ensino do português acha-se hoje fortemente condicionado, se é que não ameaçado, por uma espécie de doxa anti-humanista que, persistindo como persiste, terá um efeito devastador no nosso futuro próximo, conforme já se vai percebendo pela forma como os nossos jovens escrevem, falam e lêem. Pior: pouco lêem. Ninguém (…) contesta, por certo, a bondade de uma política de investimento na investigação científica, nas tecnologias puras e duras e nas chamadas ciências exactas; errado será se esse investimento trouxer consigo a míope desqualificação de áreas do saber que directa ou indirectamente concorrem para que o ensino da língua materna recolha os ensinamentos com que se renova e aprofunda.

A este propósito, talvez não seja descabido lembrar aqui o exemplo (mau exemplo) de um certo engenheiro naval, formado em Glasgow, que, à força da radical vivência da ciência e da técnica desembocou num tédio sem retorno nem remissão, até ao ponto de afirmar, no mais célebre dos seus poemas da maturidade: “A aprendizagem que me deram/desci dela pela janela das traseiras”. Ou então e insistindo na ideia de que cada coisa vale o que vale sem ter que ignorar nem rasurar outras coisas, importa lembrar, como o têm feito autores insuspeitos (…) as Humanidades – e, no seu âmbito, o ensino do português – podem e devem dialogar intensamente com áreas do saber que, da informática às neurociências, passando pela sociologia ou pela matemática, nesse diálogo formulam contributos próprios e reciprocamente fecundos, conforme  recomenda  a epistemologia da interdisciplinaridade.

 

Carlos Reis