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Jorge Fernandes da Silveira é Professor Titular da Faculdade de Letras da UFRJ, onde se doutorou, em Literatura Portuguesa, em 1982, e formou alguns dos melhores estudiosos brasileiros da literatura portuguesa. Foi Professor Visitante nas Universidades Brown (onde se pós-doutorou), Santa Barbara at California, Minnesota e Salamanca. Tem obra vasta, dispersa por revistas de referência – Colóquio/Letras, Relâmpago, Metamorfoses, Cadernos de Literatura Comparada, Veredas, Scripta, Semear – e editoras de Portugal e Brasil. Destaquem-se, além de obras que organizou e outras de cariz antológico (sobre Cesário Verde ou Luiza Neto Jorge), os livros Portugal Maio de Poesia 61 (Lisboa, 1986); Verso com verso [Estudos de Poesia Portuguesa] (Coimbra, 2003); O Beijo Partido – Uma Leitura de O Beijo Dado Mais Tarde: Introdução à Obra de Llansol (Rio de Janeiro, 2004); Lápide & Versão: O Texto Epigráfico de Fiama Hasse Pais Brandão (Rio de Janeiro, 2006); O Tejo é um Rio Controverso – António José Saraiva contra Luís Vaz de Camões (Rio de Janeiro, 2008). Agradecemos a Jorge Fernandes da Silveira esta sua primeira colaboração com o nosso blogue.

 

Notas Sobre Ensino e Aprendizagem
(de acordo com algumas máximas contemporâneas)

 

Devíamos já saber de cor: “o maniqueísmo é o maior inimigo do pensamento”. Noutras palavras: o que se apresenta sob a representação do excesso transforma em adversários intolerantes, às vezes truculentos, aqueles que reivindicam o conhecimento como uma prática pedagógica em que o acadêmico e o político têm igual peso e responsabilidade em termos de conduta e ação, quer na visão da Universidade como o espaço público e sem fronteiras em que se divulga o ideal democrático-burguês de liberdade, igualdade e fraternidade, quer na visão de um espaço mais restrito, as suas Faculdades, ou num mais específico, a Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, em que é a partir do ensino da língua portuguesa e suas literaturas e da interlocução entre elas e línguas e literaturas de diferentes culturas e estados que se aprende a ação política da cidadania de ser sujeito em liberdade, consciente de estar sujeito a um mundo multicultural. É ensinando que se aprende. E isto é um lugar-comum. E, como todos, banalizado ou sacralizado, e, logo, de difícil compreensão ou aceitação. Há um lugar comum, contudo, que professores e alunos congrega: a sala de aula. E a sala de aula exige assistência, freqüência, ao que nela se exercita como instrumentos de avaliação do rendimento acadêmico: aulas, testes, provas e seminários. No que respeita aos corpos docente e discente, em nome de quê esta exigência pode ser desrespeitada? Não é surpresa para um órfão da Ditadura constatar que há brava gente nova, universitários de segunda e terceira geração, cuja entidade de classe afirma que manter viva a lembrança do mal passado no presente é a única garantia de liberdade no futuro. Tal cuidado de ordem política, contudo, pode correr o risco de supervalorizar exemplarmente os erros passados, sem a disciplina da autocrítica. Não causa surpresa, igualmente, a defesa de que professores universitários cada vez mais se sujeitem a exigências de órgãos financiadores que reduzem a produção acadêmica a números e prazos, não claramente identificados com interesses de ensino da Pós-Graduação e, sobretudo, da Graduação. O que não surpreende, porém, incomoda e motiva duas hipóteses de reflexão. A primeira é a de haver um corpo discente em que o político se sobreponha ao acadêmico; a segunda é a de haver um corpo docente em que o acadêmico seja superior ao político.

Em se tratando do ensino de literaturas, tais hipóteses não sejam talvez despiciendas, já que expressariam o que nos preocupa e define como profissionais de Letras: apreender o sujeito pensante na multiplicidade das matérias contraditórias que o formam, considerando que o acadêmico e o político andam à procura do ponto crítico onde se entrecuzam as suas diferenças, não natural e propriamente antagônicas. Trata-se, portanto, da aprendizagem de encarar o acadêmico e o político não segundo a lógica dogmática do que, por um lado, é o político em excesso, justificando o fraco rendimento acadêmico em nome de uma realidade social que aprisiona abusivamente o presente ao passado, e, por outro lado, é o acadêmico em excesso, que apaga a memória do passado, reprovando-a como lição para o presente. É ensinando que se apreende. E isto é uma prova difícil, porque sem tradição entre mestre e aprendiz no Brasil.

Trata-se de pôr em discussão princípios que questionem as suas verdades a fim de que se lancem  com justeza e justiça novas hipóteses na relação entre o sujeito e a sua circunstância, ou seja, para que sejam possíveis novas versões para antigas visões de mundo. Há aqui uma questão de princípio maior, exposta de maneira exemplar em algumas das carreiras mais generosas da Universidade, cuja produção bibliográfica há de ensinar não o verdadeiro método de estudar mas, se investigada com rigor e isenção, um muito provocatório modo de entrever nas suas radicais posições o propósito de que entre o acadêmcio e o político deixe de haver uma aditiva com função adversativa, na esperança de que se inscreva com autoridade um traço de união. Ou, em tempos de acordo ortográfico, uma só palavra: acadêmicopolítico. Ou vice-versa.

 

Jorge Fernandes da Silveira