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De Robert Fisk, famoso correspondente no Médio Oriente do The Times, primeiro, e do The Independent, depois, acaba de ser editado em Portugal A Grande Guerra pela Civilização. A Conquista do Médio Oriente. Fisk é uma lenda viva no jornalismo internacional, há 30 anos a viver no Líbano e a escrever sobre a região, a que dedicou já duas obras monumentais: esta muito recente e, antes, em 1990, Pity the Nation – Lebanon at War. Pelo seu trabalho foi-lhe atribuído por sete vezes o prémio International Reporter of the Year, dos British Press Awards, e por duas vezes o mais famoso prémio do jornalismo inglês: Journalist of the Year. Fisk esteve em Portugal durante a revolução de 1974, mesmo antes de ser convidado a desempenhar o cargo de corresponde do Times no Médio Oriente. Entrevistado pelo suplemento cultural do Público, Ípsilon, na edição de 5/12/08, o autor mostrou como uma sólida formação em Humanidades o preparou para aquilo que veio a ser. Como se pode ler aqui, Fisk licenciou-se em Literatura Inglesa, na Universidade de Lancaster, em 1968 (viria a doutorar-se em Ciência Política, pelo Trinity College, de Dublin, mais tarde, em 1985).

Permitimo-nos transcrever, a este propósito, partes da entrevista de Margarida Santos Lopes a Robert Fisk:

 

Ainda sabe falar e ler português?
Posso ler português facilmente, porque fiz o meu primeiro curso em latim e linguística. Quando estive no Brasil, o ano passado, achei muito fácil a leitura do jornal Folha de S. Paulo. Posso entender bem a língua portuguesa – falada não, mas escrita. Também consigo ler esse magnífico porta que vocês têm, Pessoa, apenas porque sei latim.
Tem livros de Fernando Pessoa?
Sim…
Quais?
Agora, não me lembro dos títulos. São colectâneas de poemas. Quando estava na Irlanda do Norte [a fazer a cobertura dos ‘Troubles’, o conflito entre republicanos e lealistas da Coroa britânica], fui enviado para Portugal para fazer reportagens sobre o pós-revolução de Abril. Quando abria os jornais da manhã – oh, e naquela altura havia tantos jornais da manhã! -, eu conseguia lê-los sem grande dificuldade, embora com a ajuda de um dicionário.
(…)
Quando não está em reportagem, disse que gosta de ler poesia, sobretudo a de W. H. Auden. E mais?
Estou a ter lições de violino, que eu tocava muito bem. Vou a concertos. Vou ao cinema. Saio com os meus amigos. Falamos de música, de livros e de arte. Viajo muito, para dar palestras. Acabei de regressar de Bolonha. Onde quer que vá, gosto de ver pintura. Tenho uma coluna onde posso escrever sobre tudo, e muitas vezes nem sequer é sobre o Médio Oriente. Agora estou a  escrever sobre [o grande poeta irlandês] Yeats.

De notar ainda que a entrevista a Fisk é acompanhada de pequenos depoimentos de outros grandes nomes do jornalismo internacional, todos «correspondentes de guerra», sobre Fisk, sendo que vários desses nomes têm uma formação em Humanidades (Línguas, Literaturas, História). Ou seja, quando se fala das saídas profissionais que supostamente as Humanidades não oferecem, é melhor pensar duas vezes antes de produzir juízos levianos. A formação humanística sólida de Fisk, o seu conhecimento dos clássicos, faz com que os seus livros sejam grandes obras de história contemporânea, e não apenas «jornalismo de guerra» (em todo o caso, grande jornalismo de guerra). As saídas profissionais das Humanidades podem não ser tão evidentes como as de outras áreas – e não são assim tantas aquelas nas quais essas saídas são hoje evidentes, diga-se – mas, como é visível, existem – a que acresce o facto de a reforma de Bolonha permitir hoje a um aluno de Humanidades combinar uma graduação na área com uma pós-graduação noutra área, de modo a completar a sua formação (tal como Fisk fez). A questão está, sempre, em conquistar o nosso lugar no mundo.