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A escola veste-se da gala para receber a desejada festa de Natal. Durante uma tarde, professores e alunos esquecem os cadernos, as canetas, os livros, os verbos, as contas, as regras… Durante uma tarde, canta-se, dança-se, recita-se, mostra-se à comunidade um pouco da vida entre muros. É um dos únicos dias em que a escola se abre verdadeiramente ao «mundo». Pais e amigos vêm à escola. Com visível ar de nostalgia, convivem uns com os outros e recordam, por instantes, os momentos que há 20/30 anos viveram ali, naquelas cadeiras que agora parecem tão pequenas. É a altura de falar com os professores: «Como se porta o meu filho?» – palavras de circunstância que convém não esquecer num dia como este.

Após ouvir colegas, pais e alunos desejarem-me um bom Natal, quando me preparava para fazer a viajem de regresso a casa, por breves momentos detive-me a contemplar uma imagem que me pareceu assaz sugestiva. Felizes, com as enormes mochilas às costas, as crianças seguiam sorridentes para férias, rodeadas dos pais, irmãos e amigos que, naquela situação, pareciam vir «resgatar» as crianças para si. Não liguei o motor do carro senão quando os vi desaparecer por entre o escuro da noite que já havia caído. Na viagem para casa reflecti sobre aquela imagem. As conclusões foram curiosas.

A imagem do «resgate» fez-me compreender que a escola é um lugar de passagem cuja influência na vida daquelas crianças é, apesar de tudo, bastante limitada. Mais tarde ou mais cedo, os alunos serão todos «resgatados». Nas férias, depois de nove anos, doze, ou mesmo ao fim de dezassete ou dezoito anos, a sociedade «resgata» sempre os seus filhos. A sua influência na vida das crianças (ainda para mais a sociedade mediatizada como a nossa) vai ser incomparavelmente maior do que a da escola.

Dura conclusão. Como poderemos aceitá-la sem cair no desânimo e na apatia? Como poderá um professor, depois de se aperceber disto, prosseguir o seu trabalho sem perder a crença na importância da sua profissão?

Torna-se incontornável fazer um «pacto de esquecimento». Se queremos desempenhar a nossa função de forma a rentabilizar ao máximo a influência de que ainda dispomos, temos de nos esquecer dessa aziaga conclusão e concentrarmo-nos nessa pequena parcela de terreno que ainda temos ao nosso dispor.

Se o Padre António Vieira vivesse no século XXI, com certeza dirigiria o seu Sermão da Sexagésima aos professores. Se faz pouco fruto a palavra dos professores no mundo, também esse facto só poderá dever-se a três factores: a escola, os alunos e os professores. Acontece que a escola é um local de suspensão do mundo. Trata-se (ainda) de um local privilegiado para a troca de influências e transmissão de ensinamentos. Logo, não virá de si a fraca colheita. Os alunos, por seu turno, sempre foram seres influenciados pelas famílias e por outros agentes sociais que muitas vezes lhes inculcam ideias e ideais contrários aos da escola. Logo, também não é nova esta disputa de «espaço». Resta-nos centrar a nossa atenção nos professores, visto que fadigarmo-nos a culpar o sistema, os alunos ou a sociedade não contribui para a melhoria directa dos nossos serviços e sua máxima rentabilização.

O professor é (também) um semeador. Tal como o semeador não controla variantes como a qualidade da terra, as chuvas ou as secas, também o professor não controla variantes como as ideias veiculadas pelas famílias ou pelos media. Por essa razão, julgo que o que cabe ao professor é esforçar-se por melhorar as suas «técnicas de semeadura».

Grande parte das sementes lançadas à terra pelo semeador não nascem ou não frutificam, é natural que assim seja. Também as ideias «semeadas» pelo professor podem encontrar enormes obstáculos: Uma parte cairá nos «espinhos» de uma sociedade enjoativamente materialista e afogar-se-á aí; outra cairá sobre as «pedras» de preconceitos domésticos e secar-se-á; outra cairá no «caminho» de realidades sociais adversas e será «pisada» por homens sem escrúpulos e «comida» por aves predadoras que sempre se aproveitam da fragilidade de outros. É real, uma grande parte da sociedade «arma-se contra a semeadura» da escola. Onde residirá então a verde esperança que justifica o nosso trabalho diário?

Como o semeador referido por Vieira não desanimou, também o professor não deve desanimar. Há sempre uma parte da semente que encontra terreno fértil. Essa nasce, cresce, amadurece, colhe-se e depois de medir-se, acha-se que cada um desses pequenos grãos se multiplicou já por «um cento». Confiados na fertilidade dessas sementes, podemos exultar e exclamar como Vieira: «Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira!» – e seguir confiantes no nosso trabalho.

 

Daniel Joana
(Professor de Inglês nas Escolas Básicas do 1º Ciclo de Paço e Botão e aluno do curso de pós-graduação em Literatura Portuguesa, Investigação e Ensino)