Janeiro 2009


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O Instituto Camões acaba de abrir, no seu Centro Virtual, a Biblioteca Digital Camões, que seguramente se tornará em breve uma ferramenta de trabalho fundamental na área dos Estudos Portugueses e Lusófonos. Definida como «um repositório da cultura em língua portuguesa, tendo como principal critério a publicação de obras integrais, para leitura gratuita, sem necessidade de registos ou subscrição», a Biblioteca Digital Camões «tem autores e edições no domínio público, mas também em edições actuais, protegidas por direitos conexos (fixação de textos, notas críticas, prefácios e posfácios…etc.), obras protegidas por direitos e de autores vivos». Sobre os níveis diferenciados de acesso, bem como todas as questões relacionadas com direitos de autor, veja-se esta página.

Quanto aos títulos disponíveis, que vão de artigos académicos a livros, oscila entre um título isolado, no caso de Biografias, e os 480 na área da História. O item Língua oferece 43 títulos, Literatura (obras integrais de que é possível fazer download) 63, Estudos Literários/Crítica Literária 143. Mas há ainda Educação, Infantil, Cinema, Arte, etc.

Este é pois um daqueles casos em que é difícil colocar restrições aos elogios a fazer, sobretudo se pensarmos em todos aqueles que, no estrangeiro, se debatem com falta de instrumentos de apoio para o ensino da língua, literatura e cultura portuguesas.

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O Ípsilon, suplemento cultural do Público, que acompanha o jornal na edição de sexta-feira, está desde há algumas semanas disponível em linha. Subdividido nos itens Música, Teatro/Dança, Cinema, Livros, Artes, o suplemento oferece uma informação cultural das mais completas da imprensa portuguesa, razão pela qual se saúda esta nova possibilidade de acesso ao seu conteúdo.

O link para o Ípsilon passará a constar, em permanência, da barra da direita deste blogue, na secção dedicada a Jornais e Revistas.

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O  projecto de Programas de Língua Portuguesa para o Ensino Básico está, a partir de ontem, disponível na página da Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação.

Os comentários ao programa que agora entra na fase de discussão pública  poderão ser enviados para a Equipa de Português da DGIDC, através do endereço electrónico equipadeportugues@dgidc.min-edu.pt.

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Ao longo da minha vida tenho convivido com vários Eças. Com os meus Eças, desdobramentos e feições distintas de um escritor cuja multiforme diversidade não cessou, até hoje, de me surpreender.

Curiosamente, não me recordo de ter conhecido um Eça escolar. No tempo em que, no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo, eu estudava Português, dominava a selecta, vigorava o respeito e Eça era demasiado ousado para a “boa” moral que regia a pedagogia de então. Estava-se nos anos 60, um tempo que só depois vim a perceber quão decisivo e dramático foi na vida pública portuguesa e no destino da Europa e do mundo; para mim, nessa época, bastavam os Beatles para vagamente entender que havia um fenómeno chamado conflito de gerações,  pacatamente  reduzido quase só ao pequeno escândalo de uns cabelos modestamente compridos e de uma empolgante música de duvidosa afinação. De Eça retenho uma primeira e equivocada imagem: a que me foi sugerida por um título, numa montra de livraria, que rezava assim, por debaixo do nome do autor: Os Maias. Para mim, nesse tempo, os Maias eram um povo nativo da América Latina, talvez porque o dito povo tenha perpassado, diante dos meus olhos, nalguma banda desenhada das que  ilustravam as páginas do Cavaleiro Andante e títulos quejandos. E já que pouco mais  do que isso cabia na minha juvenil ignorância, no “contrato” de leitura que estabeleci com aquela capa, com aquele título e com aquele nome de autor, aquele não era um livro literário, mas (talvez) um livro de História.

Mais tarde, numa adolescência espigada, percebi que Eça de Queirós e os seus livros eram outra coisa. Foi na biblioteca fixa da Gulbenkian, nesse tempo hospedada numa espécie de desvão da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, que uma capa esbranquiçada da Lello me chamou a atenção. O livro intitulava-se singelamente A Capital e era do tal Eça de Queirós. Levei-o para casa, mais por estar o tal livro classificado como desaconselhado a adolescentes (ah! o doce e inocente sabor das transgressões de então!), do que por outra qualquer razão. E li-o de uma ponta à outra, quase sem parar, num êxtase que só muito depois voltaria a experimentar, provocado por um contemporâneo de Eça chamado Machado de Assis.

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Os Antigos diziam: “De minima non curat praetor”. Como quem diz: não percamos tempo com minúcias nem com assuntos menores. Será assim? Se fosse, não daríamos atenção a um certo João Mínimo, afinal tão importante na história literária de um grande escritor português. E não nos deteríamos nas reflexões de um fundamental pensador do século XX, capaz de deduzir uma “filosofia comum” a partir de uma “experiência subjectiva” atenta a pequenos gestos e a manifestações do quotidiano, tudo resolvido em aforismos que desembocaram numa Minima Moralia. Ou então  passaríamos ao largo de um certo Diário Mínimo (e depois, de um Segundo Diário Mínimo), onde, com humor e com perspicácia, se discreteia sobre  conversas com taxistas ou usos do telemóvel.

Há um Eça de Queirós mínimo? Certamente que sim. Veja-se, por exemplo, o que está na Biblioteca Mínima do Conto e da Novela, coordenada por Luísa Costa Gomes: lá se encontram oito contos de  Eça, ainda assim não tão mínimos como alguns dos textos que escreveu para a Gazeta de Portugal. Por exemplo, os brevíssimos relatos minimalistas do conjunto “Farsas”.

Confirmo: há uma Queirosiana Mínima, como já houve uma Pessoana Mínima (por Antonio Tabucchi, pessoano máximo) e mesmo uma Política Mínima (por Paulo Ferreira da Cunha, professor de Direito no Porto). A minha Queirosiana Mínima será talvez da mesma família de umas certas “relíquias mínimas” de que se fala n’A Relíquia: “Mas a Sr.ª D. Patrocínio ruminava um escrúpulo ciumento. Não lhe parecia delicado para Nosso Senhor (nem para ela) que se repartissem estas relíquias mínimas antes de lhe ser entregue a ela, como senhora e como tia, na capela, a grande relíquia…”

Deixo, então, de lado, por agora, as “grandes relíquias” queirosianas e curo das mínimas relíquias: pequenas reflexões, observações avulsas, memórias recônditas. Noutros termos: o meu Eça é feito também de queirosianismos mínimos como os que aqui ficam. O meu Eça e, desde já, os meus Eças.

 

Carlos Reis