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Os Antigos diziam: “De minima non curat praetor”. Como quem diz: não percamos tempo com minúcias nem com assuntos menores. Será assim? Se fosse, não daríamos atenção a um certo João Mínimo, afinal tão importante na história literária de um grande escritor português. E não nos deteríamos nas reflexões de um fundamental pensador do século XX, capaz de deduzir uma “filosofia comum” a partir de uma “experiência subjectiva” atenta a pequenos gestos e a manifestações do quotidiano, tudo resolvido em aforismos que desembocaram numa Minima Moralia. Ou então  passaríamos ao largo de um certo Diário Mínimo (e depois, de um Segundo Diário Mínimo), onde, com humor e com perspicácia, se discreteia sobre  conversas com taxistas ou usos do telemóvel.

Há um Eça de Queirós mínimo? Certamente que sim. Veja-se, por exemplo, o que está na Biblioteca Mínima do Conto e da Novela, coordenada por Luísa Costa Gomes: lá se encontram oito contos de  Eça, ainda assim não tão mínimos como alguns dos textos que escreveu para a Gazeta de Portugal. Por exemplo, os brevíssimos relatos minimalistas do conjunto “Farsas”.

Confirmo: há uma Queirosiana Mínima, como já houve uma Pessoana Mínima (por Antonio Tabucchi, pessoano máximo) e mesmo uma Política Mínima (por Paulo Ferreira da Cunha, professor de Direito no Porto). A minha Queirosiana Mínima será talvez da mesma família de umas certas “relíquias mínimas” de que se fala n’A Relíquia: “Mas a Sr.ª D. Patrocínio ruminava um escrúpulo ciumento. Não lhe parecia delicado para Nosso Senhor (nem para ela) que se repartissem estas relíquias mínimas antes de lhe ser entregue a ela, como senhora e como tia, na capela, a grande relíquia…”

Deixo, então, de lado, por agora, as “grandes relíquias” queirosianas e curo das mínimas relíquias: pequenas reflexões, observações avulsas, memórias recônditas. Noutros termos: o meu Eça é feito também de queirosianismos mínimos como os que aqui ficam. O meu Eça e, desde já, os meus Eças.

 

Carlos Reis