Fevereiro 2009


bule

Correia Garção tende a restringir a totalidade efémera à privacidade do ambiente doméstico, como se fosse neste aspecto mais recatado e menos mundano do que o Abade de Jazente. Mas a sua versão de boa vida inclui também toda a materialidade adjacente, em relação estreita com o sujeito, conferindo maior densidade à experiência privada do prazer e da convivialidade. Vejamos um soneto emblemático:

O louro chá no bule fumegando 
De Mandarins e Brâmanes cercado;
Brilhante açúcar em torrões cortado;
O leite na caneca branquejando;

Vermelhas brasas alvo pão tostando;
Ruiva manteiga em prato mui lavado;
O gado feminino rebanhado,
E o pisco Ganimedes apalpando:

A ponto a mesa está de enxaropar-nos.
Só falta que tu queiras, meu Sarmento,
Com teus discretos ditos alegrar-nos.

Se vens, ou caia chuva, ou brame o vento,
Não pode a longa noite enfastiar-nos,
Antes tudo será contentamento.

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Quando me apresento como professor de Português Língua Estrangeira (PLE), é frequente gabarem-me a sorte de ter um trabalho tão criativo. Mas a verdade é que, como qualquer outro professor, o professor de PLE precisa de aliar à indispensável criatividade o rigor. Persiste no imaginário de muitos a ideia de que o único requisito para ensinar uma língua é tê-la como língua materna (eu sei falar português, logo eu posso ensinar português), ou seja, de que ensinar a própria língua não exige grande preparação nem trabalho. No máximo, admite-se que um professor de português está mais qualificado para desempenhar essa tarefa, sem se considerar todavia que o ensino de português a falantes de outras línguas compreenda uma especificidade. A realidade contraria esta ideia: grande parte dos professores de português do ensino primário e secundário vêem-se em sérias dificuldades quando acolhem numa turma um aluno com conhecimentos incipientes da língua portuguesa ou que a não sabe falar de todo.

Imaginemos, como exemplo que nos guiará ao longo deste texto na tentativa de definir uma especificidade do professor de PLE, a seguinte situação: um estudante português que participe num programa de estudos erasmus num país estrangeiro tem aí a ideia e a oportunidade de ensinar português a estrangeiros com o objectivo de ganhar uns trocos (vida de erasmus oblige). Rapidamente se aperceberá de que não tem grandes hipóteses de sucesso se para isso contar unicamente com o conhecimento empírico que todos temos da nossa própria língua. Vejamos porquê.

É sabido que a aprendizagem de uma língua é um trabalho que exige método – logicamente, o ensino da língua também o exige. Sem definir um método de trabalho, dificilmente um professor (ou, no caso, um estudante erasmus) conseguirá ensinar de forma eficaz um estrangeiro a falar, a compreender, a escrever, a ler em português. É claro que muitos indivíduos que não falam português, imersos num ambiente onde só se fala essa língua (a chamada situação de input), acabarão por alcançar competências mínimas em cada uma dessas áreas ou, em palavras mais simples, acabarão por conseguir desenrascar-se. Todos temos conhecimento de casos semelhantes, alguns extraordinários, quanto mais não seja de portugueses imigrantes que se integraram noutras comunidades linguísticas sem estudos aprofundados, isto é, através do “ouvido”. Contudo, para que não haja confusões, sublinho que estamos a falar do ensino de língua estrangeira (que aliás muitas vezes não acontece em situação de input), em que o objectivo da aprendizagem não é conseguir desenrascar-se, mas sim efectivamente desenvolver capacidades nesses diferentes domínios.

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Começo pela leitura de um título de J. L. Hopffer C. Almada publicado no primeiro número da revista Lusografias: “Estes poetas são meus. De todo o orgulho”. Problemáticas actuais da lusografia e da universalização na literatura cabo-verdiana”. A parte destacada, parcialmente repetida na revista Confraria, é um verso de Carlos Drummond de Andrade. No texto a que pertence, “Consideração do Poema”, ele introduz uma acção de graças próxima daquela que Rui Knopfli praticou em “Contrição”. Agora sou eu que devo agradecer a Osvaldo Alcântara, autor de “Capitão das Ilhas” , o título que proponho para esta coluna. A expressão recorda ainda Gabriel Mariano, que escreveu o ensaio “Osvaldo Alcântara. Caçador de Heranças ou Inquietação Social”; bem como, enfim, os empenhados heredipetae que o latinista Baltasar Lopes da Silva terá oferecido a Osvaldo Alcântara.

Além de dar à escrita o que é da escrita, a segunda parte do citado título de J. L. Hopffer Almada designa o processo que, genericamente, atribuímos à literatura cabo-verdiana actual: a universalização. Ainda que, no manual da Universidade Aberta, Pires Laranjeira situe o período do Universalismo entre 1966 (Exemplo Geral) e 1983 (Ponto & Vírgula), deve reconhecer-se que as convenções que definem o período seguinte, dito da Consolidação, decorrem ainda desse movimento universalizante inaugurado – ou recuperado – pelos exemplos de João Vário.

Mas Cabo Verde não deixou entretanto de fazer parte do universo; pelo contrário, os últimos anos produziram poemas em forma de livros que, como vem sugerindo Almada, dão corpo a um pendor ou paradigma épico, também ele constitutivo do estado actual da literatura cabo-verdiana. Além de Pedras de Sol & Substância, de Corsino Fortes, e d’O Segundo Livro de Notcha, de T. Tio Tiofe, que em 2001 prosseguiam programas iniciados pelas décadas de 60 e 70, surgiram, por exemplo, Nascimento de Um Mundo (1991), de Mário Lúcio Sousa, Esteira Cheia ou o Abismo das Coisas (1999), de António de Névada, Konfison na Finata (2003), de Kaká Barboza, ou Assomada Nocturna (Poema de NZé di Sant’y Águ) (1993 e 2005), de José Luís Hopffer C. Almada.

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ruiguilherme

Rui Guilherme Gabriel nasceu em Torres Novas, em 1970. Na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra licenciou-se em Estudos Portugueses (1997) e fez parte do Núcleo GIRAFA. Depois de leccionar em Cabo Verde (em São Filipe, Fogo, e na Praia, Santiago), cursou o Mestrado em Literaturas e Culturas Africanas e da Diáspora, que concluiu em 2005 com uma dissertação intitulada Teoria e Poética da Crioulidade Cabo-Verdiana. Membro investigador do Centro de Literatura Portuguesa da FLUC, prepara uma tese de doutoramento sobre a poesia cabo-verdiana actual. Tem artigos sobre as literaturas africanas de língua portuguesa publicados em volumes colectivos. É professor do ensino básico e secundário na Região Autónoma da Madeira.

Caçadores de Heranças será o título da rubrica fixa que Rui Guilherme Gabriel assinará neste blogue, dedicada a matéria cabo-verdiana.

 aguiar

Os meus primeiros Eças foram, então, atravessados por acasos, por equívocos, por juvenis atrevimentos e por secretas admirações. Provavelmente é assim que os grandes amores começam e é assim também, às vezes a partir de um encontro casual e inesperado, que duram o tempo das nossas vidas.

Quis o destino e também a minha vontade que um outro Eça começasse a tomar forma dentro de mim, pelo meu desejo de fazer dele o escritor da minha vida. O Eça que conheci nos bancos da Faculdade de Letras de Coimbra foi sobretudo o da Geração de 70, mas já também o de Fradique Mendes, então acentuado nas suas facetas tardo-românticos e tradicionalistas, mais do que nas suas premonições modernistas. No princípio dos anos 70 e na Universidade de Coimbra, o ensino da literatura portuguesa não chegava ao século XX.

Quase logo depois, apareceu-me pela frente a teoria da literatura, efeito directo do competente e motivador magistério do Prof. Vítor Aguiar e Silva. E pela primeira vez, fiz de Monsieur Jourdain: era a narratologia que estava no caminho que eu ia trilhando, sem que eu me apercebesse de que “falava narratologia”, com a nitidez teórica que ela veio a assumir para mim. Quando se tratou de escolher um autor e um tema para a minha tese de licenciatura (quem se lembra hoje de que tal coisa existia?), a decisão foi óbvia: Eça de Queirós. Foi isso que propus ao Prof. Aguiar e Silva, meu orientador de seminário e de tese; a ideia foi por diante, até por trazer consigo uma articulação com a teoria que, na minha intuição, fazia sentido. (Uns anos mais tarde, Guerra da Cal dir-me-ia: uma boa tese faz-se sempre a partir de uma boa intuição). Tratava-se de estudar a evolução queirosiana à luz das mudanças técnicas que as suas narrativas evidenciam, particularmente no que dizia respeito à formulação dos pontos de vista e à configuração de situações narrativas distintas. E assim percorri quase toda a ficção queirosiana, com inesgotável entusiasmo, com incontáveis fichas e com a alegre crença de que me era possível surpreender um Eça por descobrir. Um Eça que, nesse tempo, para mim era sobretudo um repositório de focalizações, de registos do discurso, de níveis diegéticos e de narradores autodiegéticos. A verdade seja dita: aprendi coisas que me ficaram para a vida.

A tese fez-se, dei-lhe o título pretensioso e meio darwinista de Metamorfoses Narrativas na Ficção de Eça de Queirós e a Profª Ofélia Paiva Monteiro arguiu-a, com tolerância e com amena simpatia, num dia 27 de Julho que não esquecerei. O saudoso Joaquim Machado editou-a na sua Almedina, teve três edições e, sinceramente, não me envergonho do que fiz, porque me regi por uma convicção forte e por um entusiasmo que quase desculpam o título ainda mais retorcido que nessa edição em livro acabei por dar àquele meu estudo: Estatuto e Perspectivas do Narrador na Ficção de Eça de Queirós. Como diria o próprio Eça, éramos assim absurdos em 1975!

Carlos Reis

“Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).”

Algures, no final do século XVI, uma Companhia atreveu-se a inscrever isto na obra Ratio Studiorum (não confundir com um dos actuais pesadelos do ensino superior, que tem um sentido totalmente diverso). Embora não sejam verdadeiramente texto lusófono, os excertos que me chegaram hoje pelos bons ofícios da Prof. Doutora Ofélia Paiva Monteiro animarão alguns companheiros de jornada. Já agora, poderão enviar para o blogue a vossa definição de “trabalhos domésticos”.

Por contraste, na próxima semana veremos o regulamento aconselhado ao professor americano (ou professora…), em meados do século XIX.

Joana Vieira Santos

studiorum

“Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).”

“Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações.”

Recomenda-se a todos os professores um dia de repouso semanal: “A solicitude por parte dos superiores anima muito os súbditos e reconforta-os no trabalho.”

“Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo.”

Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque “a honra eleva as artes.”

“Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade.”

“I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência

Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.

II. 20. Manter o entusiasmo dos professores

O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos.”

Ratio Studiorum da Companhia de Jesus (1599).

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