agualusa

José Eduardo Agualusa (n. em 1960, no Huambo, Angola) é um escritor talentoso, que, por exemplo, integra bem nos seus escritos anedotas correntes, que sabe usar o método pós-moderno da colagem e mistura. Não sendo um escritor light, longe disso, é como se o seu conceito de literatura visasse, em doses significativas, a boa disposição do leitor e o seu entretenimento, dando-lhe cenários variados (a lógica viajante e turística do século XX), personagens caricatas, episódios “impossíveis”, sem chegar, contudo, a inquietá-lo com uma história que desestabilize as “certezas” reinantes.

O narrador-osga, animizado, do romance O vendedor de passados é um bom achado e, tal como nesse grande pormenor, o talento do A. surge em situações e frases diversas, conseguindo transformar em oiro, para divertir o leitor, a mais simples anedota, introduzindo-a, quase parecendo a despropósito, mas inteligentemente, numa fala das personagens, funcionando como exemplo ilustrativo, no que parece uma expansão do seu savoir-faire de cronista. Mostra o seu talento quando descreve, por exemplo, a cena de vida fictícia de José Buchmann. O jogo da literatura – a sua ficcionalidade verosímil, isto é, a sua falsidade honesta – atinge alto nível, quando Buchmann, a falsa figura inventada por Félix para o estranho, se vai tornando verdadeira na narrativa, a ponto de o estranho se metamorfosear na identidade de Buchmann que o outro lhe forjou. A maturidade de Agualusa é desse calibre: domina cada vez mais o “imprevisto”; põe uma personagem a fazer uma pergunta, desvia a atenção do leitor com um excurso (ou incursão noutro domínio) e dá a resposta por intermédio de outra personagem dez linhas adiante, surpreendendo na leitura. Interessante. Como divertimento que mimetiza Borges.

Passageiros em trânsito (Novos contos para viajar) é um conjunto muito instigante, que me agradou sobremaneira pela linguagem simples (apanágio do A.), as histórias directas, os pormenores hilariantes e os desfechos imprevistos ou sentimentais, como se aproveitasse bem uma suposta linguagem de aeroporto, ou seja, standard, trabalhada literariamente, para toda a gente compreender. O conto ajusta-se melhor à sua especificidade narrativa, e ele consegue interessantes efeitos de humor, anedóticos ou não. Os cenários cosmopolitas e sobretudo multiculturais, considerados globalmente, vão bem com as histórias ágeis e, por vezes, mirabolantes, em que cabem às mil maravilhas personagens inusuais, de excepção ou “anormais”. Nada fora da actualidade, em qualquer literatura, mas, no caso, precipitando a identificação do leitor mais próximo, “lusófono”, com essa realidade inventada a golpes de retórica e língua ligeira.

Abordei As mulheres de meu pai entusiasmado pela leitura dos contos. O A. usa, de modo cada vez mais expedito, a citação, o pastiche, a glosa, por exemplo, do poema “O grande desafio”, do poeta angolano António Jacinto, para criar um texto espesso quanto a transtextualidades voluntárias, desse modo homenageando vultos sobretudo da cultura angolana, moçambicana e cabo-verdiana, mas também portuguesa (alguns deles, pressuponho, seus amigos).

Reconheço que o romance é um interessante exercício – hodiernamente habitual – de fragmentação, com ritmo endiabrado, numa prosa seca, exuberante quanto a pequenas cintilações, jogando em voltefaces surpreendentes, piadas, figuras grotescas, excepcionais mesmo, mudando rapidamente de espaço, trocando as voltas ao tempo, ao leitor. Mas certas afirmações no texto quanto às anedotas desqualificam o saber científico: “capazes de revelar mais sobre um determinado período histórico do que um denso ensaio cheio de números” (pode ser uma hipérbole, mas são opiniões dessas dentro da narrativa que farão sorrir pela negativa qualquer leitor avisado).

Boa adaptação de todo o tipo de linguagens num discurso controlado, uma espécie de bric-à-brac de pequenas surpresas, pouco densas é certo, mas saborosas. Lê-se como crónica de costumes e facécias, fluente e mordaz, algumas vezes, como é habitual em Agualusa, de mordacidade ideológica e política, como quando é desferido um ataque aos partidários de Agostinho Neto que derrotaram, em 1977, os golpistas de Nito Alves.

Por vezes, o discurso tem descuidos: “às girafas e aos rinocerontes, mais a estas do que àqueles”; “para que hei-de filmar o mundo se posso filmá-la ela?”. O romance mostra assim um e outro tique de facilitismo, estereótipos de linguagem e pensamento, quando precisamente se quer apresentar como texto descomplexado. Cai, por exemplo, no velhíssimo preconceito do “langor de mulata”. É por isso que este texto, juntamente com outros (crónicas, contos, entrevistas, etc.), contribui para uma continuada apologia hiperbólica da mestiçagem, como se, (in)conscientemente, se quisesse desvalorizar as realizações dos negros (trata-se também de valorizar “o talento” em abstracto, sem olhar às circunstâncias difíceis de determinados grupos), o que está de acordo com a preferência por homenagear um Jall Sinth Hussein e outros, como Lacerda e Sant’ Anna, e não alguns dos verdadeiros representantes da cultura negro-africana, maioritária, mostrando qual o exclusivo (e legítimo) campo cultural. É evidente que o A. tem direito a citar quem quiser, e a escolher o tipo de romance, mas as preferências, associadas às catilinárias, expressam a opção de mundo africano: branco e mestiço, não mais do que isso. Assim, não pensem os leitores não africanos que, lendo Agualusa, conseguem compreender ou sentir melhor África através da literatura. Na obra do A. falta uma problemática funda e dramática, uma inquirição existencial e social que vá além de certa superfície “artística”, “culturalista”, “divertida”.

Pires Laranjeira