porbase

Nos últimos vinte anos, a integração dos catálogos das bibliotecas modificou radicalmente o acesso à informação bibliográfica. Ao permitir o acesso em linha a vastos corpora de dados bibliográficos, os catálogos integrados em acesso público (OPACs) aceleraram extraordinariamente os processos de identificação, localização e compilação de fontes bibliográficas de informação. O desenvolvimento de normas de catalogação e de linguagens de marcação estandardizadas internacionalmente possibilitou a integração da informação e a sua pesquisa agregada. É esta a racionalidade que levou à criação da PORBASE na década de 80, cuja descrição actual é feita nestes termos:

«A PORBASE – Base Nacional de Dados Bibliográficos é o catálogo colectivo em linha das bibliotecas portuguesas, constituindo a maior base de dados bibliográficos do país na qual colaboram a Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) e mais de 170 bibliotecas portuguesas de variados tipos e dimensões, tanto públicas como privadas. Criada em 1986, a PORBASE é coordenada pela BNP e está disponível ao público desde Maio de 1988.»

As 170 bibliotecas portuguesas referidas incluem a maior parte das bibliotecas universitárias (incluindo as Universidades de Coimbra, Porto e Lisboa), diversas bibliotecas de institutos politécnicos, várias bibliotecas públicas municipais, e ainda bibliotecas de museus e fundações, de direcções-gerais e outros departamentos governamentais, e de alguns arquivos distritais. Na base de dados são referidos quatro tipos de biblioteca: nacional, universitárias, públicas e especializadas. Estão representadas todas as regiões do país: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve, Madeira e Açores.

O modo de pesquisa elaborada permite procurar por palavras-chave nos campos autor, título, assunto, título de colecção, editor e local de publicação. No modo de pesquisa avançada três daqueles campos podem ser combinados entre si através dos operadores booleanos e/ou/não. Opcionalmente podem ainda usar-se os seguintes campos para limitar a pesquisa: biblioteca, tipo de biblioteca, região, tipo de documento (analíticos, monografias, periódicos e outros), língua e país. Podem ainda introduzir-se limites temporais referentes à data de publicação: entre o ano x e o ano y. Por último, é possível seleccionar o modo de apresentação dos resultados da pesquisa: por ordem alfabética do título ou por ordem cronológica do ano de publicação.

Tal como noutros catálogos em linha, o utilizador pode guardar uma lista com os resultados que verificam os critérios de pesquisa e enviá-la por correio electrónico – uma funcionalidade útil para a elaboração de uma lista bibliográfica ou para quando se faz a consulta num terminal que não o computador pessoal. A grande vantagem da PORBASE é poder verificar rapidamente a existência de uma determinado título num conjunto disseminado de bibliotecas (sem necessidade de aceder aos catálogos específicos) e poder verificar se está disponível numa biblioteca próxima do local onde nos encontramos. Deste modo, o acesso remoto aos dados bibliográficos integrados permite aumentar o universo de fichas bibliográficas consultadas e localizar a biblioteca mais próxima em que existe o item pesquisado. A PORBASE permite não só planear de forma mais eficaz a deslocação a uma biblioteca específica, mas tirar maior partido dos recursos bibliográficos colectivos de que dispomos, considerando-os como se se tratasse de itens de um único catálogo. Trata-se, num certo sentido, de um outro modo de universalizar a biblioteca: agregar o conjunto de livros de um número crescente de bibliotecas e agregar o conjunto dos seus utilizadores.

Exemplo de pesquisa elaborada:
1. Palavras-chave no título: «O Gene Egoísta»
2. Resultado da pesquisa em aberto: 4 registos verificam o critério introduzido (1ª edição portuguesa, 1989; 2ª edição portuguesa [revista e aumentada], 1999; 3ª edição portuguesa, 2003; 1ª edição brasileira, 1979)
3. Resultado se for restringinda a pesquisa à Região Centro: 2 registos verificam o critério introduzido (1ª edição portuguesa, 1989; 2ª edição portuguesa [revista e aumentada], 1999)
4. Se, destes dois últimos registos, escolher a edição de 1999, verifico que há 4 exemplares desta edição na PORBASE, dos quais 2 se encontram em Bibliotecas da Universidade de Coimbra: Univ. Coimbra Bibl.Geral (com a cota 5-57-21-13) e Univ. Coimbra – Dep. Zoologia (com a cota QH 437. D38 1999). Esta pesquisa também me permitiu verificar que não existe nas bibliotecas da Região Centro qualquer exemplar da 3ª edição portuguesa, de 2003.

Não esquecer: registo corresponde a edição diferente, e não a exemplar, o que significa que a 4 registos podem corresponder mais do que 4 exemplares. No que se refere ao título pesquisado (O Gene Egoísta, de Richard Dawkins), existem na PORBASE os seguintes espécimes: 10 exemplares da edição portuguesa de 1989 + 4 exemplares da edição portuguesa de 1999 + 2 exemplares da edição portuguesa de 2003 + 1 exemplar da edição brasileira de 1979. Aos 4 registos correspondem portanto 17 exemplares.

Uma base nacional de dados bibliográficos deve, em última instância, contribuir para alargar o acesso aos livros para além dos limites intramurais das instituições que os possuem. Esse alargamento tem portanto uma dimensão social e uma dimensão geográfica. Uma vez redefinidas certas formas de uso através dos catálogos de acesso público em linha, a posse pública dos livros deve poder ser aquilo que deveria ser em todas as instituições: um meio de maximizar a distribuição e a partilha das informações, das ideias e das formas que contêm. Esta constitui, aliás, uma das grandes vantagens da tecnologia digital em todas as esferas sociais: a possibilidade de tornar mais públicas todas as funções públicas, incluindo a disseminação social do conhecimento produzido e adquirido pelas instituições de ensino e de arquivo através das aquisições bibliográficas para as respectivas bibliotecas.

A disseminação do conhecimento sobre o uso dos catálogos integrados é um passo preliminar na disseminação social do conhecimento e do uso dos livros e de outras fontes documentais, especialmente importante num contexto universitário. Os catálogos bibliográficos automáticos são estruturas de metadados que permitem representar a categorização do conhecimento e, nessa medida, são auxiliares imprescindíveis na representação da estrutura, actual e passada, de um determinado campo de conhecimento. Por isso a informação bibliográfica, enquanto informação sobre a informação, constitui um momento crucial de todos os processos de investigação científica. Do desenvolvimento da investigação e da divisão do trabalho intelectual, que se reflecte numa crescente especialização na produção de conhecimento, decorre a necessidade constante de actualização bibliográfica. As limitações nas fontes acessíveis a partir de uma única biblioteca, mesmo quando altamente especializada, podem ser colmatadas com o recurso agregado a outras bibliotecas que o catálogo integrado da PORBASE possibilita. O uso de catálogos automáticos integrados (consultar entrada anterior sobre Pesquisa bibliográfica nas bibliotecas da UC) constitui uma componente metodológica essencial nas práticas actuais do trabalho científico.

Manuel Portela