Começo pela leitura de um título de J. L. Hopffer C. Almada publicado no primeiro número da revista Lusografias: “Estes poetas são meus. De todo o orgulho”. Problemáticas actuais da lusografia e da universalização na literatura cabo-verdiana”. A parte destacada, parcialmente repetida na revista Confraria, é um verso de Carlos Drummond de Andrade. No texto a que pertence, “Consideração do Poema”, ele introduz uma acção de graças próxima daquela que Rui Knopfli praticou em “Contrição”. Agora sou eu que devo agradecer a Osvaldo Alcântara, autor de “Capitão das Ilhas” , o título que proponho para esta coluna. A expressão recorda ainda Gabriel Mariano, que escreveu o ensaio “Osvaldo Alcântara. Caçador de Heranças ou Inquietação Social”; bem como, enfim, os empenhados heredipetae que o latinista Baltasar Lopes da Silva terá oferecido a Osvaldo Alcântara.

Além de dar à escrita o que é da escrita, a segunda parte do citado título de J. L. Hopffer Almada designa o processo que, genericamente, atribuímos à literatura cabo-verdiana actual: a universalização. Ainda que, no manual da Universidade Aberta, Pires Laranjeira situe o período do Universalismo entre 1966 (Exemplo Geral) e 1983 (Ponto & Vírgula), deve reconhecer-se que as convenções que definem o período seguinte, dito da Consolidação, decorrem ainda desse movimento universalizante inaugurado – ou recuperado – pelos exemplos de João Vário.

Mas Cabo Verde não deixou entretanto de fazer parte do universo; pelo contrário, os últimos anos produziram poemas em forma de livros que, como vem sugerindo Almada, dão corpo a um pendor ou paradigma épico, também ele constitutivo do estado actual da literatura cabo-verdiana. Além de Pedras de Sol & Substância, de Corsino Fortes, e d’O Segundo Livro de Notcha, de T. Tio Tiofe, que em 2001 prosseguiam programas iniciados pelas décadas de 60 e 70, surgiram, por exemplo, Nascimento de Um Mundo (1991), de Mário Lúcio Sousa, Esteira Cheia ou o Abismo das Coisas (1999), de António de Névada, Konfison na Finata (2003), de Kaká Barboza, ou Assomada Nocturna (Poema de NZé di Sant’y Águ) (1993 e 2005), de José Luís Hopffer C. Almada.

Sobre Assomada Nocturna escreveram já, entre outros, Mário Fonseca, Inocência Mata e Elsa Rodrigues dos Santos. O que proponho agora é uma aproximação a algumas estrofes deste livro, começando, um tanto ao acaso, pelo fragmento dirigido a Kaká. O uso reiterado da apóstrofe inicial e do remate sobre as noites longas da Assomada faz a ossatura deste livro. A locução noite longa, em particular, lembra o refrão de “Nocturno”, de Jorge Barbosa, citado também por Corsino Fortes no poema “Pesadelo em terra alheia”. Outros traços do ideolecto de NZé di Sant’y Águ serão o vago esboço de uma trama narrativa (neste caso encenada numa versão santiaguense da “Cidade” que Perse recorda nos Elogios); ou essa virulência vocabular, de raiz talvez cesairiana e não alheia à acusação moral, em que uma adjectivação farta empola os nomes plurais; ou, enfim, o processo de derivação semântica a partir de um paralelismo que, no caso vertente, permite conduzir as águas pantanosas à indiferença dos homens.

Lembras-te, Kaká
das fontonas dos charcos
das poças de águas pútridas
infestadas de insectos de vermes
do cheiro nauseabundo
dos sapos mortos inchados
boiando nas águas fétidas lamacentas
dos homens afogados
como Nho Nando fisgados
do pântano e do esquecimento
pela esperteza de Pálu Nha Lela
postada vitoriosa sobre a improvisada jangada
sulcando justiceira pelas águas escuras
e pela covarde indiferença
dos senhores dos paços do concelho
entretidos com o clube
as concubinas os jogos de fortuna
e as noites longas de Assomada?

Rui Guilherme Valente