bule

Correia Garção tende a restringir a totalidade efémera à privacidade do ambiente doméstico, como se fosse neste aspecto mais recatado e menos mundano do que o Abade de Jazente. Mas a sua versão de boa vida inclui também toda a materialidade adjacente, em relação estreita com o sujeito, conferindo maior densidade à experiência privada do prazer e da convivialidade. Vejamos um soneto emblemático:

O louro chá no bule fumegando 
De Mandarins e Brâmanes cercado;
Brilhante açúcar em torrões cortado;
O leite na caneca branquejando;

Vermelhas brasas alvo pão tostando;
Ruiva manteiga em prato mui lavado;
O gado feminino rebanhado,
E o pisco Ganimedes apalpando:

A ponto a mesa está de enxaropar-nos.
Só falta que tu queiras, meu Sarmento,
Com teus discretos ditos alegrar-nos.

Se vens, ou caia chuva, ou brame o vento,
Não pode a longa noite enfastiar-nos,
Antes tudo será contentamento.

Dispenso-me por agora de retomar demoradamente os aspectos da apreciação culinária e do jogo dos apetites. A comida funcionará socialmente como um forte indutor do efémero doméstico, ocupando um espaço importante na representação poética da consciência “satisfeita” que caracteriza a percepção burguesa emergente. António José Saraiva, ao comentar a obra do autor, havia já destacado a «transição quase imperceptível entre as composições burlescas e aquelas em que a realidade quotidiana ganha foros plenos de cidadania estética». Em Garção, o efémero contém de facto esta promessa estética, pelo menos no sentido em que o efémero urbano do melhor Tolentino continha também a promessa do registo descritivo moderno. Ainda assim, a domesticidade de Garção pode continuar a ser lida num plano material.

Contrariamente ao efémero urbano, a domesticidade de Garção integra um encontro “produtivo” entre a representação do retiro bucólico e a expressão (ou o adestramento) da privacidade e da afectividade do sujeito burguês. Neste aspecto, a sua poesia epitomiza uma situação comum a outros escritores, também atraídos pelo conúbio familiar com a idealização arcádica. No soneto citado, é o terceiro verso da segunda quadra – «O gado feminino rebanhado» – que liga os dois espaços, denunciando, no mesmo instante, a representação patriarcal que frequentemente transita entre a cidade e o universo dos pastores. Repare-se que a condição de felicidade enunciada por Garção não depende da participação da mulher, mas da chegada do amigo Sarmento e, com ele, da ocasião conversacional que se aguarda. Neste soneto, a alegria doméstica assenta na partilha de «discretos ditos» entre dois amigos, acompanhada por manteiga e torradas. Na arquitectura semântica da composição, o imaginário bucólico não ajudou propriamente à emancipação “perceptiva” da mulher de Garção, que de resto terá contribuído, inversamente, para a emancipação material do marido.

Este encontro entre a «choça» e a «casa» pode ser interpretado como um estádio intermédio na construção do efémero doméstico na poesia portuguesa. Ocorre repetidamente em Garção, autor que aqui demonstra o melhor do «estilo desadornado» referido por António J. Saraiva. Garção apenas se lembra da mulher, e ainda assim como «mãe», quando na prisão lhe falta o conforto da «choça» doméstica, entretanto inacessível, tal como os amigos e, seguramente, comida que pudesse deixar um ser humano minimamente confortado: «Na choça estão de Corydon cantando / A triste mãe, os filhos inocentes».

Fernando Matos Oliveira