Quando me apresento como professor de Português Língua Estrangeira (PLE), é frequente gabarem-me a sorte de ter um trabalho tão criativo. Mas a verdade é que, como qualquer outro professor, o professor de PLE precisa de aliar à indispensável criatividade o rigor. Persiste no imaginário de muitos a ideia de que o único requisito para ensinar uma língua é tê-la como língua materna (eu sei falar português, logo eu posso ensinar português), ou seja, de que ensinar a própria língua não exige grande preparação nem trabalho. No máximo, admite-se que um professor de português está mais qualificado para desempenhar essa tarefa, sem se considerar todavia que o ensino de português a falantes de outras línguas compreenda uma especificidade. A realidade contraria esta ideia: grande parte dos professores de português do ensino primário e secundário vêem-se em sérias dificuldades quando acolhem numa turma um aluno com conhecimentos incipientes da língua portuguesa ou que a não sabe falar de todo.

Imaginemos, como exemplo que nos guiará ao longo deste texto na tentativa de definir uma especificidade do professor de PLE, a seguinte situação: um estudante português que participe num programa de estudos erasmus num país estrangeiro tem aí a ideia e a oportunidade de ensinar português a estrangeiros com o objectivo de ganhar uns trocos (vida de erasmus oblige). Rapidamente se aperceberá de que não tem grandes hipóteses de sucesso se para isso contar unicamente com o conhecimento empírico que todos temos da nossa própria língua. Vejamos porquê.

É sabido que a aprendizagem de uma língua é um trabalho que exige método – logicamente, o ensino da língua também o exige. Sem definir um método de trabalho, dificilmente um professor (ou, no caso, um estudante erasmus) conseguirá ensinar de forma eficaz um estrangeiro a falar, a compreender, a escrever, a ler em português. É claro que muitos indivíduos que não falam português, imersos num ambiente onde só se fala essa língua (a chamada situação de input), acabarão por alcançar competências mínimas em cada uma dessas áreas ou, em palavras mais simples, acabarão por conseguir desenrascar-se. Todos temos conhecimento de casos semelhantes, alguns extraordinários, quanto mais não seja de portugueses imigrantes que se integraram noutras comunidades linguísticas sem estudos aprofundados, isto é, através do “ouvido”. Contudo, para que não haja confusões, sublinho que estamos a falar do ensino de língua estrangeira (que aliás muitas vezes não acontece em situação de input), em que o objectivo da aprendizagem não é conseguir desenrascar-se, mas sim efectivamente desenvolver capacidades nesses diferentes domínios.

Concentremo-nos, pois, na questão do método. O que faria o tal estudante erasmus, por exemplo na Finlândia, perante um aluno desejoso de aprender português mas incapaz de compreender ou de pronunciar duas palavras nessa língua? Um primeiro passo inteligente seria munir-se de materiais de trabalho disponíveis no mercado, como os manuais de PLE. Estes manuais, divididos por unidades, pretendem orientar o aluno numa aprendizagem progressiva, através de objectivos delineados e de conteúdos seleccionados, introduzindo gradualmente estruturas cada vez mais complexas da língua. Notemos, pois, desde já que não seria concebível encontrarmos, por exemplo, na primeira unidade de um manual a frase “a caneta serve para escrevermos”: o infinitivo pessoal (escrevermos) é uma particularidade do português que levantaria certamente problemas e exigiria uma explicação complicada para alunos que contactam pela primeira vez com a língua. O aluno finlandês ver-se-ia em apuros para compreender; o estudante erasmus não só não teria à partida consciência dessa dificuldade (numa primeira aula, poderia utilizar frase semelhante), como provavelmente não estaria preparado para explicar de forma clara que existe em português uma forma conjugada do infinitivo ou para indicar alguns exemplos de uso. Acima de tudo, possivelmente não teria o discernimento para compreender que essa não é uma dificuldade que deva ser abordada na primeira aula de um processo de aprendizagem do português.

Mas centremo-nos em exemplos com que poderia de facto deparar-se o estudante erasmus ao utilizar as primeiras unidades de um manual: frases aparentemente tão simples como “estou doente, fico em casa”, “ele usa calças curtas” ou “esse lápis é teu?” contêm uma série de dificuldades que um falante materno de uma língua normalmente não identifica como tal. Porquê “estou doente” e não “sou doente”? Porquê “fico em casa” e não “fico na casa”? Porquê “usa calças” e não “usa umas calças”? Porquê “esse lápis” e não “este lápis”? Porquê “são teus” e não “são os teus”? Enfim, não é por o nosso estudante erasmus falar português que ele saberá responder de forma clara a estas perguntas, tanto mais que, se taxativamente considerar esses usos incorrectos, rapidamente os encontrará em outros contextos em que são aceitáveis (“sou doente do coração”, “na casa amarela há um jardim”, comprei umas calças nos saldos”, “este lápis precisa de ser afiado”, “está aqui o teu lápis”).

Destes exemplos elementares, com que se confrontará qualquer professor de PLE nas primeiras aulas que dê, se infere que para ensinar português a estrangeiros não basta saber falar português. O estudante erasmus, ainda que bem-intencionado, simplesmente não tem a qualificação necessária para o fazer. Como precisa de fazer qualquer outro professor para ensinar qualquer outra matéria, o professor de PLE tem de passar por um processo longo e rigoroso de estudo e de compreensão dos aspectos que na sua língua podem levantar problemas aos falantes de outras para depois encontrar a maneira mais clara e eficaz de os transmitir e de responder às dúvidas dos alunos. Como é evidente, o grau e a variedade desses problemas diferem de acordo com a língua materna desses falantes: um italiano ou um francês (para nem falar de um espanhol) terão em princípio muito menos dificuldades em compreender um enunciado em português do que um alemão que não conheça nenhuma outra língua românica, assim como este terá menos dificuldades do que um chinês.

Não haverá grande exagero em dizer que é necessária ao professor de PLE uma reaprendizagem da língua, ou melhor, uma capacidade de a observar de uma perspectiva exterior, o que exige sensibilidade e reflexão e, na verdade, só se adquire com a experiência da sala de aula. Ao fim de uma série de experiências de ensino, o professor aprende a colocar-se em pele alheia, a ouvir-se de fora, a ler um texto em português como se esta língua lhe fosse estrangeira – e, assim, a prever o que suscitará dúvida ou provocará confusão. Enfim, o professor de PLE com alguma experiência desenvolverá o talento de contemporaneamente presidir à aula e assistir sentado à carteira, ao lado dos alunos. Ao dirigir-se oralmente aos alunos ou ao compor para eles os seus próprios materiais de trabalho (apelo que, mais tarde ou mais cedo, todos os bons professores sentem), o professor de PLE terá de adaptar o seu discurso, terá de saber mover-se por entre uma outra língua que já não é propriamente a sua, uma língua que conhece mas que não pode utilizar como utilizaria em situações do quotidiano.

Fique claro que não estou a referir-me meramente ao uso de um diferente registo da língua. Falo, sim, de um uso da língua que tem inevitavelmente de sofrer um processo de adaptação ao nível dos alunos, sem o qual estes se sentem perdidos e desmotivados. Tal processo, para ser eficaz, não pode ser estanque, devendo evoluir a cada aula em complexidade e sofisticação: do “vamos abrir o livro” da primeira aula, acompanhado de linguagem gestual, à discussão de temas em profundidade num nível avançado, com recurso a uma vasta gama de estruturas complexas e emprego de vocabulário preciso. E tal evolução não pode de facto ser feita sem método, ou corre o risco de mais não ser do que a transmissão de um conjunto de conhecimentos teóricos, um aglomerado de conhecimentos esparsos e descosidos que não permitem ao aluno exprimir-se numa língua viva e natural. Saber conduzir esse processo gradual sem que ele seja demasiado marcado, sem cair em facilitismos e sobretudo sem criar uma língua artificial é o verdadeiro desafio profissional específico do professor de língua estrangeira, e é o que em primeiro lugar o diferencia do bem-intencionado estudante erasmus.

Nota: este texto terá continuação em breve.

Gonçalo Duarte