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Os meus primeiros Eças foram, então, atravessados por acasos, por equívocos, por juvenis atrevimentos e por secretas admirações. Provavelmente é assim que os grandes amores começam e é assim também, às vezes a partir de um encontro casual e inesperado, que duram o tempo das nossas vidas.

Quis o destino e também a minha vontade que um outro Eça começasse a tomar forma dentro de mim, pelo meu desejo de fazer dele o escritor da minha vida. O Eça que conheci nos bancos da Faculdade de Letras de Coimbra foi sobretudo o da Geração de 70, mas já também o de Fradique Mendes, então acentuado nas suas facetas tardo-românticos e tradicionalistas, mais do que nas suas premonições modernistas. No princípio dos anos 70 e na Universidade de Coimbra, o ensino da literatura portuguesa não chegava ao século XX.

Quase logo depois, apareceu-me pela frente a teoria da literatura, efeito directo do competente e motivador magistério do Prof. Vítor Aguiar e Silva. E pela primeira vez, fiz de Monsieur Jourdain: era a narratologia que estava no caminho que eu ia trilhando, sem que eu me apercebesse de que “falava narratologia”, com a nitidez teórica que ela veio a assumir para mim. Quando se tratou de escolher um autor e um tema para a minha tese de licenciatura (quem se lembra hoje de que tal coisa existia?), a decisão foi óbvia: Eça de Queirós. Foi isso que propus ao Prof. Aguiar e Silva, meu orientador de seminário e de tese; a ideia foi por diante, até por trazer consigo uma articulação com a teoria que, na minha intuição, fazia sentido. (Uns anos mais tarde, Guerra da Cal dir-me-ia: uma boa tese faz-se sempre a partir de uma boa intuição). Tratava-se de estudar a evolução queirosiana à luz das mudanças técnicas que as suas narrativas evidenciam, particularmente no que dizia respeito à formulação dos pontos de vista e à configuração de situações narrativas distintas. E assim percorri quase toda a ficção queirosiana, com inesgotável entusiasmo, com incontáveis fichas e com a alegre crença de que me era possível surpreender um Eça por descobrir. Um Eça que, nesse tempo, para mim era sobretudo um repositório de focalizações, de registos do discurso, de níveis diegéticos e de narradores autodiegéticos. A verdade seja dita: aprendi coisas que me ficaram para a vida.

A tese fez-se, dei-lhe o título pretensioso e meio darwinista de Metamorfoses Narrativas na Ficção de Eça de Queirós e a Profª Ofélia Paiva Monteiro arguiu-a, com tolerância e com amena simpatia, num dia 27 de Julho que não esquecerei. O saudoso Joaquim Machado editou-a na sua Almedina, teve três edições e, sinceramente, não me envergonho do que fiz, porque me regi por uma convicção forte e por um entusiasmo que quase desculpam o título ainda mais retorcido que nessa edição em livro acabei por dar àquele meu estudo: Estatuto e Perspectivas do Narrador na Ficção de Eça de Queirós. Como diria o próprio Eça, éramos assim absurdos em 1975!

Carlos Reis