Março 2009


O grau de solidez dos alicerces varia em proporção da altura que se pretende dar à estrutura. Quando se sonha com um topo elevado, investe-se na base todo o trabalho e toda atenção. 

É curioso como regras tão simples da Física se podem aplicar a várias estruturas sociais que conhecemos. Há alguns anos atrás, ri-me com vontade quando ouvi um conhecido opinion maker português, professor universitário, dizer na televisão que gostaria de terminar a sua carreira como professor do 1º Ciclo do Ensino Básico. Pela exigência que a tarefa requeria, ensinar naquele nível de ensino seria, a seu ver, o topo da carreira de um professor. Hoje envergonho-me da minha reacção ignorante. 

Quis um conjunto de factores que o meu “baptismo” como professor fosse não só no 1º Ciclo do Ensino Básico mas também no ensino Pré-Escolar. Ao início causou-me impressão. Ensinar inglês a crianças que não conheciam as letras? Como poderia ser possível? Com as primeiras aulas, o que era uma “impressão” transformou-se em inquietação pois as crianças também não sabiam os números! Como poderia ensinar-lhes que “um” era “one” se muitos nem associavam o número à realidade física nem conheciam o seu aspecto gráfico? Depois, essa inquietação deu origem à confusão. Alguns deles não conseguiam ainda distinguir as cores. E a confusão transformou-se em pânico quando muitos adormeciam nas aulas, não controlavam os esfíncteres, choravam sem razão aparente…

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Quando se passa uma parte da vida académica a estudar um autor, ele vai mudando para nós e mesmo em nós; e quando esse autor apresenta a riqueza e a diversidade de Eça de Queirós, mais natural se torna que se vão sucedendo, para o olhar de quem o estuda, diferentes faces desse vulto com quem convivemos, na excitação da sempre iminente descoberta de coisas novas. As coisas novas que Eça me revelou foram, a certa altura, os seus papéis mais íntimos.

Pelo fim dos anos 70, não me recordo exactamente quando, António Alçada Baptista, nessa época Director do Instituto Português do Livro, chamou-me a Lisboa para uma conversa. Lá fui, ainda meio travestido de Artur Corvelo, para receber o desafio de estudar o espólio de Eça de Queirós, pouco tempo antes incorporado nos fundos da Biblioteca Nacional pelo seu Director de então, João Palma-Ferreira. Fiquei assustado, fascinado e envaidecido. Assustado, porque eu nada sabia de como se estudava um espólio literário (nessa altura eu mal sabia até o que era um espólio literário, para além de supor que eram papéis velhos e talvez indecifráveis); fascinado, porque me aparecia pela frente, sem que eu o pedisse, a possibilidade de conhecer um Eça a que muito poucos haviam tido acesso; envaidecido, porque o meu nome fora indicado ao Director do IPL por Guerra da Cal, “o Ernesto”, como dizia Alçada Baptista. O inolvidável autor de Língua e Estilo de Eça de Queirós não me conhecia pessoalmente e eu nem sabia que, nessa época, ele vivia em Portugal, numa bela casa do Estoril onde vim a ser visita frequente. Mas desde logo percebi que, para Guerra da Cal, antes das amizades e dos conhecimentos pessoais, importavam outros e mais drásticos critérios, quando se tratava de confiar a alguém uma tarefa com a complexidade da que me esperava.

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Na passada Primavera, um convidado do Norte de Portugal, de visita à Galiza, iniciou conversa com um professor galego comentando: “Que tal este ano? Muchos problemas por lo de la sequía?”. O professor galego olhou-o incrédulo e apontou-lhe a janela, respondendo, em português: “Mas não vê como chove lá fora? Estamos na Galiza!”. A anedota, infelizmente, é real e vai ocorrendo, com variantes, na maior parte dos encontros, ou mais vale dizer desencontros, galego-portugueses. Por algum motivo inexplicável, os conferenciantes portugueses, convidados pelas universidades galegas, teimam em puxar do melhor castelhano, mesmo quando os anfitriões galegos lhes pedem o favor de falarem em português. Os conferenciantes agradecem, mas interpretam isto como apenas uma oferta amável, retórica, sem validade efectiva. E a sala rebenta com uns sonoros: Buenos días

Este amor não correspondido da Galiza por Portugal não se circunscreve ao espaço da Universidade. Sentimo-lo no final dos concertos de bandas portuguesas na Galiza e nas invariáveis Muchas gracias, sofremo-lo na avidez por Lobo Antunes e Pessoa nas livrarias galegas e na respectiva indiferença pelo livro galego a sul do Minho, suportamo-lo de cada vez que um português pergunta a um galego pela tourada ou pelo flamenco.

Nisto, tenho notado que os brasileiros são mais atentos. Se são entendidos em Português, é nessa língua que falam. E chegam a chamar Portugueses do Norte aos galegos, que com isto se comovem até às lágrimas. Caetano Veloso, por exemplo, aprendeu a falar português na Galiza, e no último concerto que deu em Santiago de Compostela não se lhe ouviu nem um arranhão no portunhol. Mas a compreensão da complexidade dos vários territórios no espaço chamado Espanha deveria tê-lo alertado para que a proximidade entre o Português e o Galego é extraordinária, mas não ilimitada. Fechando o concerto com a canção “A luz de Tieta”, procurou que o público repetisse o refrão: “Tieta…eta…eta….“. E não entendeu que o público, mudo, se recusasse a gritar por “Eta”.

Ana Bela Almeida

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A nossa exploração da Galiza moderna começa com uma canção mítica que já nos anos 80 do século XX tinha sido destacada pela revista portuguesa Blitz como exemplo paradigmático do underground galego.  “Galicia caníbal” do grupo Os Resentidos, liderados pelo poeta e artista multimédia Antón Reixa, pertence aos tempos em que a “movida” viguesa estava no seu auge. O título do disco “Fai un sol de carallo”, no qual apareceu esta canção em 1986, quando foi o hit do Verão, tornou-se já numa frase feita em galego.  Os Resentidos, com os seus textos críticos e irreverentes, cheios de iconoclastias e vanguardismos, provaram que era possível cantar rock em galego e canibalizar a própria cultura. Hoje são reconhecidos, junto com os Siniestro Total, como o grupo que desencadeou toda a cena rock cantada em galego. As bandas portuguesas aperceberam-se logo do seu valor inovador: No dia 3 de Outubro de 1986, os Mão Morta e os Pop dell’Arte, actuam com Os Resentidos no Kremlin de Vigo e cantam a coro o “Galicia caníbal” (vejam também V. Junqueira: Mão Morta: narradores da decadência. Famalicão: Quasi 2004). Posteriormente, produziu-se um vídeo cheio de alusões políticas e de crítica social:

 

 

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Confirma-se: há vida lusófona a norte do Minho. Na secção “Galiza Canibal” (nome roubado ao grupo de rock Os Resentidos), Ana Bela Almeida e Burghard Baltrusch, dois estrangeirados que leccionam Estudos Portugueses em universidades do berço de Portugal (leia-se Galiza ou Galicia com [θ] intervocálico), prometem mastigar um pouco de tudo – contanto que não faça mal aos dentes: da dura sobrevivência dos Estudos Portugueses além-Minho, passando pelas novidades na área da língua, cultura e literatura galegas, sem perderem de vista as ondas do mar de Vigo, a rebeldia de Rosalía, as vacas de Lupe Gómez e o licor café.

 

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Burghard Baltrusch é Professor agregado de Literatura Lusófona e Teoria da Tradução na Universidade de Vigo. Coordenador do Mestrado em Tradución & Paratradución e presidente da Asociación Internacional de Estudos Galegos.

Áreas de Investigação: Fernando Pessoa, Literatura Portuguesa e Galega Contemporâneas, Teoria da Tradução, Crítica Feminista. Para uma bibliografia parcial veja-se http://webs.uvigo.es/paratraduccion/paratraduccion/PublicacionesGrupoPARATRADUCCION.pdf 
 
ana-belaAna Bela Almeida é ex-aluna de Estudos Portugueses na FLUC e na Universidade Nova de Lisboa. Foi leitora de Português em Santa Barbara (Califórnia), Vigo e Corunha. Prepara doutoramento a apresentar à Universidade da Corunha.

Traduziu A Ovelha Negra e outras fábulas, de Augusto Monterroso. Colabora no blogue Os Livros Ardem Mal.

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Depois, veio o meu Eça mais, digamos, “escolar”. Pelo fim dos anos 70, início dos anos 80, ainda se lia alguma coisa nas escolas secundárias e Os Maias eram leitura “obrigatória”. Nunca gostei da expressão: para mim, a leitura não deve ser “obrigatória”, muito menos a d’Os Maias. Surgiu-me então a ideia de fazer alguma coisa de semelhante ao que eu lia em prestimosas colecções didácticas, sobretudo francesas; e tendo conversado sobre o assunto com uma antiga colega (por onde andará?), a ideia consolidou-se: a minha Introdução à leitura d’Os Maias, que publiquei, de novo na Almedina, em 1978, teve uma primeira tiragem de 12 500 exemplares,  número que obviamente achei desmedido. Mas quando verifiquei que aquela tiragem se esgotara em menos de um ano, pude confirmar a ideia de que o sagaz Joaquim Machado, com o seu faro editorial, dominava como poucos o mundo da  edição e o seu difícil mercado.

O livrinho ainda aí anda, já cansado de tanta reimpressão, de tanta fotocópia e de tantas imitações, umas disfarçadas, outras nem tanto. Vendeu, até hoje, uns 110 mil exemplares e fica na minha memória de autor como um momento decisivo em que percebi que era necessário e possível escrever claro sobre Eça de Queirós e sobre o seu grande romance.

Carlos Reis

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