O grau de solidez dos alicerces varia em proporção da altura que se pretende dar à estrutura. Quando se sonha com um topo elevado, investe-se na base todo o trabalho e toda atenção. 

É curioso como regras tão simples da Física se podem aplicar a várias estruturas sociais que conhecemos. Há alguns anos atrás, ri-me com vontade quando ouvi um conhecido opinion maker português, professor universitário, dizer na televisão que gostaria de terminar a sua carreira como professor do 1º Ciclo do Ensino Básico. Pela exigência que a tarefa requeria, ensinar naquele nível de ensino seria, a seu ver, o topo da carreira de um professor. Hoje envergonho-me da minha reacção ignorante. 

Quis um conjunto de factores que o meu “baptismo” como professor fosse não só no 1º Ciclo do Ensino Básico mas também no ensino Pré-Escolar. Ao início causou-me impressão. Ensinar inglês a crianças que não conheciam as letras? Como poderia ser possível? Com as primeiras aulas, o que era uma “impressão” transformou-se em inquietação pois as crianças também não sabiam os números! Como poderia ensinar-lhes que “um” era “one” se muitos nem associavam o número à realidade física nem conheciam o seu aspecto gráfico? Depois, essa inquietação deu origem à confusão. Alguns deles não conseguiam ainda distinguir as cores. E a confusão transformou-se em pânico quando muitos adormeciam nas aulas, não controlavam os esfíncteres, choravam sem razão aparente…

A terrível gradação só abrandou quando deixei cair alguns preconceitos e o pânico deu origem a horas e horas a fio de preparação de aulas e estudos teóricos. Ensinar no 1º Ciclo e no Pré-Escolar estava a exigir de mim como poucas cadeiras universitárias tinham exigido. Quase que sentia remorsos de certos pensamentos e conversas que havia tido com outros colegas, nos tempos da faculdade, acerca do ensino nestas faixas etárias.

Ser (bom) professor nos primeiros anos do sistema de ensino é tão exigente como sê-lo nos anos finais, com a agravante de uma responsabilidade acrescida. O mais pequeno acto do professor pode, neste nível, ter enormes consequências para as crianças. Nutro, agora, pelas professoras do 1º Ciclo e pelas Educadoras de Infância uma grande admiração. São elas/es que recebem nas mãos os diamantes em bruto, que nem sequer sabem pegar numa caneta, e, poucos anos depois, devolvem-nos já preparados para estudar História, Matemática, Literatura, Físico-Química, Música, Ciências… Partem do zero e ensinam às crianças o que é um número, a que realidade física esse número corresponde, como se chamam as vinte e tal letras de formas esquisitas, a que som correspondem, como se juntam, o que significam. Tudo tarefas cuja dificuldade em nada fica atrás da de ensinar a um aluno universitário a Teoria da Relatividade de Einstein. 

Quase um ano após o início do meu trabalho com crianças destas faixas etárias, apercebi-me de que só um investimento rigoroso mas total na base do sistema de ensino poderia evitar os problemas de insucesso e abandono escolar que despontam depois nos últimos anos do ensino básico e secundário. Mais. Que um investimento em força nos alicerces do ensino pouparia posteriormente rios de dinheiro que se gastam nos “apoios paliativos” (muitas vezes) estéreis aplicados anos mais tarde. Que uma formação de professores do 1º Ciclo rigorosa e exigente, em que apenas os melhores pudessem dar aulas, seria um salto evolutivo enorme para o país. Um aluno que saia do 1º Ciclo sem sólidas competências de leitura, escrita, cálculo, entre outras, dificilmente recuperará o terreno perdido. Pensar-se-á que o aluno tem dificuldades a História e a Geografia, quando o seu problema é de leitura, pensar-se-á que tem dificuldades a Físico-Química, quando o seu problema é de cálculo matemático, pensar-se-á que o aluno é indisciplinado e sem educação, quando o seu problema é a impossibilidade de compreender o que o professor ou os livros dizem, por falta de competências básicas.

Não sei até quando leccionarei nestes níveis de ensino, mas o trabalho é exigente bastante para me manter motivado. Uma experiência destas no início da carreira vai, com certeza, ajudar-me a compreender melhor a Escola e os seus problemas como não seria possível se tivesse começado logo pelo “topo”. Trata-se de assistir ao vivo à criação do mundo escolar. 

Daniel Joana  (Professor de Inglês e estudante do mestrado em Literatura Portuguesa – Investigação e Ensino)