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Quando se passa uma parte da vida académica a estudar um autor, ele vai mudando para nós e mesmo em nós; e quando esse autor apresenta a riqueza e a diversidade de Eça de Queirós, mais natural se torna que se vão sucedendo, para o olhar de quem o estuda, diferentes faces desse vulto com quem convivemos, na excitação da sempre iminente descoberta de coisas novas. As coisas novas que Eça me revelou foram, a certa altura, os seus papéis mais íntimos.

Pelo fim dos anos 70, não me recordo exactamente quando, António Alçada Baptista, nessa época Director do Instituto Português do Livro, chamou-me a Lisboa para uma conversa. Lá fui, ainda meio travestido de Artur Corvelo, para receber o desafio de estudar o espólio de Eça de Queirós, pouco tempo antes incorporado nos fundos da Biblioteca Nacional pelo seu Director de então, João Palma-Ferreira. Fiquei assustado, fascinado e envaidecido. Assustado, porque eu nada sabia de como se estudava um espólio literário (nessa altura eu mal sabia até o que era um espólio literário, para além de supor que eram papéis velhos e talvez indecifráveis); fascinado, porque me aparecia pela frente, sem que eu o pedisse, a possibilidade de conhecer um Eça a que muito poucos haviam tido acesso; envaidecido, porque o meu nome fora indicado ao Director do IPL por Guerra da Cal, “o Ernesto”, como dizia Alçada Baptista. O inolvidável autor de Língua e Estilo de Eça de Queirós não me conhecia pessoalmente e eu nem sabia que, nessa época, ele vivia em Portugal, numa bela casa do Estoril onde vim a ser visita frequente. Mas desde logo percebi que, para Guerra da Cal, antes das amizades e dos conhecimentos pessoais, importavam outros e mais drásticos critérios, quando se tratava de confiar a alguém uma tarefa com a complexidade da que me esperava.

Para não deixar mal parado quem me encomendava o trabalho e muito menos quem para mim apontara, fiz três coisas: estudei, pedi a ajuda de pessoa capaz e recorri ao conselho de Guerra da Cal, com quem, a partir de então e por causa do espólio de Eça, estabeleci contacto e fui firmando sólida amizade. Guardo na memória, como recordações indeléveis, os muitos encontros com o meu saudoso Mestre, na sua casa do Estoril; da sua palavra sedutora, firme e convicta colhi ensinamentos, experiências de vida, saborosos episódios dos tempos da amizade com García Lorca, da militância anti-franquista na Guerra Civil espanhola, do exílio político em terras americanas e do longo trajecto como professor respeitado. Tudo isso e também a consciência de que fora Guerra da Cal quem encetara aquilo a que hoje chamamos estudos queirosianos, sempre devedores do seu labor, encimado pela  monumental Bibliografía Queirociana –   assim mesmo, com título em castelhano –, publicada pela Universidade de Coimbra, minha alma mater.

A  “devassa” dos papéis queirosianos não teria chegado a bom porto sem a colaboração competente e dedicada da minha colega  Maria do Rosário Cunha, certa e constante cúmplice em matéria queirosiana. O livro que em 1989 publicámos – A Construção da Narrativa Queirosiana. O Espólio de Eça de Queirós, edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda – tenta articular três métodos de análise, em parte e aparentemente difíceis de conciliar: a narratologia, porque se tratava de tentar perceber a embrionária articulação de fundamentais categorias da narrativa queirosiana; a história literária, porque estava em causa um processo evolutivo também determinado por razões exógenas à escrita literária; e a crítica genética, então mal conhecida ou até desconhecida entre nós. Valha a verdade que, nos anos em que preparámos aquele nosso livro (ou seja: em meados e na segunda metade dos anos 80), a crítica genética dava ainda os seus primeiros passos, lá onde apareceu. Posso dizer, sem embaraço nem complexo, que pela segunda vez fiz de Monsieur Jourdain – talvez até antes do nascimento de Monsieur Jourdain…

Carlos Reis