Caçadores de Heranças


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No posfácio à (muito gralhada) edição portuguesa de Camões, décimo capítulo de The Spirit of Romance (1910), Stephen Wilson afirma que Ezra Pound antecipa nesse texto a definição de épica que viria a cunhar no ABC of Reading (1961): “a poem including history”. Já a propósito de Paterson, Éloges ou The Cantos, disse Paul Merchant que o registo autobiográfico neles inscrito constitui a novidade da epopeia do século XX. Narrativa pessoal e história nacional são, precisamente, a matéria poética de Assomada Nocturna. Quanto à primeira, ela não representará a “Autobiografia ortónima” do poema que abre o livro; trata-se antes de uma intimidade que, projectada no coração juvenil, se torna partilhável:

Ai noites de Assomada
cobertas do luar
de todas as insularidades
derramando-se pelo regaço
pelos cabelos brancos pela terna tranquilidade
dos nossos donos das nossas donas
esparramando-se pelos risos das mães de filho
pelo precoce afago das domésticas
pela austera severidade dos pais de família
fundindo-se na rasa e extrovertida altivez
nas falas várias dos filhos de Assomada
enleadas de risos
sob a luz turva e pardacenta
das lâmpadas da rua
mortiças e companheiras

Cedendo o registo lírico e esse rosto plural do protagonista de Assomada Nocturna, poderíamos então chamar-lhe “poema de formação” (ou Bildungsgedicht). Inocência Mata esteve perto deste entendimento, quando afirmou que o tempo redivivo por NZé di Sant’y Águ “pode considerar-se a fase de «conhecimento do mundo»”; nesta estrofe, e no âmbito do Bildungsroman lusófono, “o precoce afago das domésticas” ou a “austera severidade dos pais de família” não andarão longe, por exemplo, de alguns ambientes recordados em Menino de Engenho, de José Lins do Rego.

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Começo pela leitura de um título de J. L. Hopffer C. Almada publicado no primeiro número da revista Lusografias: “Estes poetas são meus. De todo o orgulho”. Problemáticas actuais da lusografia e da universalização na literatura cabo-verdiana”. A parte destacada, parcialmente repetida na revista Confraria, é um verso de Carlos Drummond de Andrade. No texto a que pertence, “Consideração do Poema”, ele introduz uma acção de graças próxima daquela que Rui Knopfli praticou em “Contrição”. Agora sou eu que devo agradecer a Osvaldo Alcântara, autor de “Capitão das Ilhas” , o título que proponho para esta coluna. A expressão recorda ainda Gabriel Mariano, que escreveu o ensaio “Osvaldo Alcântara. Caçador de Heranças ou Inquietação Social”; bem como, enfim, os empenhados heredipetae que o latinista Baltasar Lopes da Silva terá oferecido a Osvaldo Alcântara.

Além de dar à escrita o que é da escrita, a segunda parte do citado título de J. L. Hopffer Almada designa o processo que, genericamente, atribuímos à literatura cabo-verdiana actual: a universalização. Ainda que, no manual da Universidade Aberta, Pires Laranjeira situe o período do Universalismo entre 1966 (Exemplo Geral) e 1983 (Ponto & Vírgula), deve reconhecer-se que as convenções que definem o período seguinte, dito da Consolidação, decorrem ainda desse movimento universalizante inaugurado – ou recuperado – pelos exemplos de João Vário.

Mas Cabo Verde não deixou entretanto de fazer parte do universo; pelo contrário, os últimos anos produziram poemas em forma de livros que, como vem sugerindo Almada, dão corpo a um pendor ou paradigma épico, também ele constitutivo do estado actual da literatura cabo-verdiana. Além de Pedras de Sol & Substância, de Corsino Fortes, e d’O Segundo Livro de Notcha, de T. Tio Tiofe, que em 2001 prosseguiam programas iniciados pelas décadas de 60 e 70, surgiram, por exemplo, Nascimento de Um Mundo (1991), de Mário Lúcio Sousa, Esteira Cheia ou o Abismo das Coisas (1999), de António de Névada, Konfison na Finata (2003), de Kaká Barboza, ou Assomada Nocturna (Poema de NZé di Sant’y Águ) (1993 e 2005), de José Luís Hopffer C. Almada.

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ruiguilherme

Rui Guilherme Gabriel nasceu em Torres Novas, em 1970. Na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra licenciou-se em Estudos Portugueses (1997) e fez parte do Núcleo GIRAFA. Depois de leccionar em Cabo Verde (em São Filipe, Fogo, e na Praia, Santiago), cursou o Mestrado em Literaturas e Culturas Africanas e da Diáspora, que concluiu em 2005 com uma dissertação intitulada Teoria e Poética da Crioulidade Cabo-Verdiana. Membro investigador do Centro de Literatura Portuguesa da FLUC, prepara uma tese de doutoramento sobre a poesia cabo-verdiana actual. Tem artigos sobre as literaturas africanas de língua portuguesa publicados em volumes colectivos. É professor do ensino básico e secundário na Região Autónoma da Madeira.

Caçadores de Heranças será o título da rubrica fixa que Rui Guilherme Gabriel assinará neste blogue, dedicada a matéria cabo-verdiana.