Café da Lusofonia


“Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).”

Algures, no final do século XVI, uma Companhia atreveu-se a inscrever isto na obra Ratio Studiorum (não confundir com um dos actuais pesadelos do ensino superior, que tem um sentido totalmente diverso). Embora não sejam verdadeiramente texto lusófono, os excertos que me chegaram hoje pelos bons ofícios da Prof. Doutora Ofélia Paiva Monteiro animarão alguns companheiros de jornada. Já agora, poderão enviar para o blogue a vossa definição de “trabalhos domésticos”.

Por contraste, na próxima semana veremos o regulamento aconselhado ao professor americano (ou professora…), em meados do século XIX.

Joana Vieira Santos

studiorum

“Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).”

“Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações.”

Recomenda-se a todos os professores um dia de repouso semanal: “A solicitude por parte dos superiores anima muito os súbditos e reconforta-os no trabalho.”

“Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo.”

Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque “a honra eleva as artes.”

“Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade.”

“I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência

Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.

II. 20. Manter o entusiasmo dos professores

O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos.”

Ratio Studiorum da Companhia de Jesus (1599).

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Estava eu a reler um texto de Sílvio Elia sobre A língua portuguesa no mundo, de que o Instituto Camões disponibiliza um excerto na sua página, e a perceber por que motivo somos lusófonos desanimados, quando me cai em cima do portátil a contradição flagrante de tal desânimo: a notícia de que a nossa língua representa 17% do PIB.

Chamo desânimo à ideia de uma crise que tomou conta do ensino e da aprendizagem do Português, na sua variante mais repelente: a de que em pouco morreremos por falta de clientela. Não pude deixar de o evocar perante o texto de Elia, em que o espaço geolinguístico do Português aparece como uma unidade que se subdivide em cinco «faces», as suas cinco primeiras «variedades» (em sentido empírico): a Lusitânia Antiga (Portugal, Madeira, Açores), a Lusitânia Nova (Brasil), a Lusitânia Novíssima (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Príncipe), a Lusitânia Perdida (na Ásia) e a Lusitânia Dispersa (as comunidades migrantes espalhadas pelo mundo).

Numa perspectiva cronológica – o artigo é de 1989 – compreende-se que assim seja: o país que é hoje Timor não existia, pouco ou nenhum conhecimento haveria sobre as comunidades migrantes (pelo menos no sentido massificado e mediático que se dá hoje à palavra «conhecimento») e, na falta de qualquer outro critério, a data de nascimento dos Estados serviria para classificar as faces da Lusofonia. Outra é a realidade de hoje, quase vinte anos passados, mas creio que estas identidades ainda perduram. Parece-me que, se desanimados estamos, é porque continuamos a ver-nos como uma língua velha, perdida e dispersa.

Portugal assume-se assim como o velho avô que poucos escutam porque, muito francamente, ninguém tem paciência para as suas histórias. Por contraste, as nações brasileira e africanas aparecem como grandes estados pujantes e plenos de força, a que se junta um bebé despontando lá longe, mais ou menos no sítio onde o vento vira… perdão! onde o sol desponta.

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Em tempos tivemos uma língua que era nossa. Entendíamos essa posse como rectangular, pequenina e ciosamente a guardávamos como pé-de-meia cultural. Depois veio a expansão, que continua a alimentar sonhos, sejam eles de lugares, poderes, saberes ou vãs glórias de mandar. Nesse mundo demasiado grande para nós, o Português cresceu, fugiu, tornou-se outro e tornou-se de outros. Partilhamos hoje a língua com gente que não conhecemos e que nos coloca fora das quatro linhas porque nem sabe se existimos ou onde existimos. Comunicamos então com esses outros? Comunicam eles connosco? Ou usam a língua que já é deles sem nos pedir licença? E licença seria necessária?

O recente Acordo Ortográfico diz que nim, Mia Couto diz que não, eu digo que tanto faz. Talvez nem seja assim tão importante o poder de um novo colonialismo linguístico. Talvez seja mais importante namorar a língua, dançar a língua e perceber que o seu uso por outrem não é propriedade, antes diálogo intercultural, afinal o centro afectivo da Lusofonia. O que acham?

 

Joana Vieira dos Santos

 

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.

Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou.

Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.

Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulburbio.

No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.

Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?

Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?

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Maria Joana de Almeida Vieira dos Santos é doutorada em Letras pela Universidade de Coimbra (Linguística Portuguesa) desde 2000. Desenvolve trabalho de investigação em sintaxe (frase, verbo, preposição) e assegura a docência de cadeiras de Linguística Francesa (História da Língua, Sintaxe), Comunicação e Linguística Portuguesa (Sintaxe) em cursos de 1º e 2º ciclo. Publicou trabalhos sobre o conjuntivo e tem em curso a elaboração  de um manual de apoio sobre linguagem e comunicação.

Neste blogue, assinará a rubrica Café da Lusofonia, sobre questões de língua portuguesa, que abre com um comentário a um texto emblemático de Mia Couto, transcrito no post seguinte.