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Nem todas as vezes que saímos de uma sala de cinema temos o privilégio de nos sentirmos mais inquietos do que quando entramos. O filme A Turma (de Laurent Cantet; 2008), que há dias tive oportunidade de ver, é uma obra notável que, como tal, causa efeitos nas pessoas. Muda mentalidades. Gera inquebrantáveis correntes de reflexões. 

Para que serve a escola? Que transformações efectivas o sistema de ensino opera sobre os seres humanos que por lá passam? A escola inclusiva funciona realmente? Como lidar com a indisciplina? Como justificar, perante os alunos, a suposta autoridade tácita do professor? Porque é que uma das alunas refere que aprendeu mais fora da escola (pelo contacto doméstico com Platão) do que nas aulas? Porque é que uma outra aluna faz questão de vincar, no final do ano, que não aprendeu absolutamente nada na escola, sem que o professor a pudesse desmentir consistentemente? O que sugere a última imagem da sala de aula vazia enquanto a “vida” se faz ouvir do lado de fora?  

Sem dúvida que os alicerces que sustentam a minha vontade de desempenhar a profissão de professor abanaram a cada vez que a personagem do professor de francês sentia os seus abanarem também. Paradoxal é que essa mesma vontade tenha saída reforçada. Não obstante ter experimentado, na sala de cinema, os sentimentos opostos de euforia e frustração que experimento depois de cada dia em que dou aulas, compreendi que é precisamente entre esses opostos que toda a vida de um professor se joga, e isso reconfortou-me. Desempenhar uma função na sociedade cujos fundamentos e objectivos últimos são sempre discutíveis e passíveis de serem postos em causa requer alguma coragem, alguma perseverança, alguma fé até. 

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