Galiza Canibal


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Na passada Primavera, um convidado do Norte de Portugal, de visita à Galiza, iniciou conversa com um professor galego comentando: “Que tal este ano? Muchos problemas por lo de la sequía?”. O professor galego olhou-o incrédulo e apontou-lhe a janela, respondendo, em português: “Mas não vê como chove lá fora? Estamos na Galiza!”. A anedota, infelizmente, é real e vai ocorrendo, com variantes, na maior parte dos encontros, ou mais vale dizer desencontros, galego-portugueses. Por algum motivo inexplicável, os conferenciantes portugueses, convidados pelas universidades galegas, teimam em puxar do melhor castelhano, mesmo quando os anfitriões galegos lhes pedem o favor de falarem em português. Os conferenciantes agradecem, mas interpretam isto como apenas uma oferta amável, retórica, sem validade efectiva. E a sala rebenta com uns sonoros: Buenos días

Este amor não correspondido da Galiza por Portugal não se circunscreve ao espaço da Universidade. Sentimo-lo no final dos concertos de bandas portuguesas na Galiza e nas invariáveis Muchas gracias, sofremo-lo na avidez por Lobo Antunes e Pessoa nas livrarias galegas e na respectiva indiferença pelo livro galego a sul do Minho, suportamo-lo de cada vez que um português pergunta a um galego pela tourada ou pelo flamenco.

Nisto, tenho notado que os brasileiros são mais atentos. Se são entendidos em Português, é nessa língua que falam. E chegam a chamar Portugueses do Norte aos galegos, que com isto se comovem até às lágrimas. Caetano Veloso, por exemplo, aprendeu a falar português na Galiza, e no último concerto que deu em Santiago de Compostela não se lhe ouviu nem um arranhão no portunhol. Mas a compreensão da complexidade dos vários territórios no espaço chamado Espanha deveria tê-lo alertado para que a proximidade entre o Português e o Galego é extraordinária, mas não ilimitada. Fechando o concerto com a canção “A luz de Tieta”, procurou que o público repetisse o refrão: “Tieta…eta…eta….“. E não entendeu que o público, mudo, se recusasse a gritar por “Eta”.

Ana Bela Almeida

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resentidos

A nossa exploração da Galiza moderna começa com uma canção mítica que já nos anos 80 do século XX tinha sido destacada pela revista portuguesa Blitz como exemplo paradigmático do underground galego.  “Galicia caníbal” do grupo Os Resentidos, liderados pelo poeta e artista multimédia Antón Reixa, pertence aos tempos em que a “movida” viguesa estava no seu auge. O título do disco “Fai un sol de carallo”, no qual apareceu esta canção em 1986, quando foi o hit do Verão, tornou-se já numa frase feita em galego.  Os Resentidos, com os seus textos críticos e irreverentes, cheios de iconoclastias e vanguardismos, provaram que era possível cantar rock em galego e canibalizar a própria cultura. Hoje são reconhecidos, junto com os Siniestro Total, como o grupo que desencadeou toda a cena rock cantada em galego. As bandas portuguesas aperceberam-se logo do seu valor inovador: No dia 3 de Outubro de 1986, os Mão Morta e os Pop dell’Arte, actuam com Os Resentidos no Kremlin de Vigo e cantam a coro o “Galicia caníbal” (vejam também V. Junqueira: Mão Morta: narradores da decadência. Famalicão: Quasi 2004). Posteriormente, produziu-se um vídeo cheio de alusões políticas e de crítica social:

 

 

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Confirma-se: há vida lusófona a norte do Minho. Na secção “Galiza Canibal” (nome roubado ao grupo de rock Os Resentidos), Ana Bela Almeida e Burghard Baltrusch, dois estrangeirados que leccionam Estudos Portugueses em universidades do berço de Portugal (leia-se Galiza ou Galicia com [θ] intervocálico), prometem mastigar um pouco de tudo – contanto que não faça mal aos dentes: da dura sobrevivência dos Estudos Portugueses além-Minho, passando pelas novidades na área da língua, cultura e literatura galegas, sem perderem de vista as ondas do mar de Vigo, a rebeldia de Rosalía, as vacas de Lupe Gómez e o licor café.

 

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Burghard Baltrusch é Professor agregado de Literatura Lusófona e Teoria da Tradução na Universidade de Vigo. Coordenador do Mestrado em Tradución & Paratradución e presidente da Asociación Internacional de Estudos Galegos.

Áreas de Investigação: Fernando Pessoa, Literatura Portuguesa e Galega Contemporâneas, Teoria da Tradução, Crítica Feminista. Para uma bibliografia parcial veja-se http://webs.uvigo.es/paratraduccion/paratraduccion/PublicacionesGrupoPARATRADUCCION.pdf 
 
ana-belaAna Bela Almeida é ex-aluna de Estudos Portugueses na FLUC e na Universidade Nova de Lisboa. Foi leitora de Português em Santa Barbara (Califórnia), Vigo e Corunha. Prepara doutoramento a apresentar à Universidade da Corunha.

Traduziu A Ovelha Negra e outras fábulas, de Augusto Monterroso. Colabora no blogue Os Livros Ardem Mal.