Língua


Como toda a gente sabe a vírgula é um dos sinais de pontuação mais desprezados. Há mesmo escritores jornalistas e/ou colunistas que se especializam em não a usar ou em usá-la sempre nos locais errados. E contudo tanta coisa pode depender de uma coisa tão discreta… É o que se aprende com este vídeo não sabemos se promocional se pedagógico em todo o caso profundamente terapêutico. Vejam leiam com atenção que logo perceberão a transcendência da vírgula.

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Uma nova ferramenta linguística acaba de surgir em linha: Português Exacto. O Sítio da Língua Portuguesa (já ligado em permanência na página «A Língua» deste blogue). Para consultas rápidas parece ser imbatível. Por exemplo, se pusermos no «Analisador Morfológico» uma palavra do título deste blogue, «tá», a resposta é esta. Previsível, não é? E lá se foi a possibilidade de chamar palavra a «tá»… Mas se lá colocarmos «cansado», a coisa já é diferente e permite-nos mesmo consultar logo de seguida a conjugação do verbo cansar, tão popular nas escolas de todos os níveis de ensino.

Quanto a palavras do léxico vasto do português, das mais banais às mais raras, o Dicionário de Língua Portuguesa parece não deixar escapar uma. Por exemplo, de entre as banais, imarcescível ou variegado ou ainda o indispensável verbo menoscabar. Do lado das mais difíceis, pontualidade, assiduidade, esforço, trabalho, todas comparecem.

A usar, pois, como dizia um grande escritor português, referindo-se ao Dicionário Moraes, com mão diurna e nocturna (expressão que talvez apareça nas abonações de outros dicionários grandes: o Aurélio, o da  Academia…).

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(sobre o Acordo Ortográfico, a propósito do «desafio» lançado por Joana Vieira dos Santos)

A Bíblia conta-nos sobre a construção de uma grande torre na Babilónia, que permitiria ao Homem chegar ao céu para ser como Deus. Mas Deus, querendo conservar a sua hegemonia como ser celeste, fez com que cada um dos construtores da torre falasse uma língua diferente. Como não conseguiam comunicar entre si não puderam continuar o projecto, e dispersaram-se pelo mundo. Assim se explica, na forma de mito, a existência das diferentes línguas do mundo.

Hoje, no vasto espaço onde se fala Português, é visível uma espécie de «síndroma de Babel». Um exemplo disso é a dificuldade que um brasileiro tantas vezes enfrenta para entender um português («Oi?»). A Língua é a mesma, na forma de duas das suas variantes, mas algo mais do que o Oceano Atlântico as separa: variações fonológicas, que causam, amiúde, um feedback comunicacional.

E eis que se torna a colocar na mesa a plataforma de aproximação linguística e cultural entre os países – um novo Acordo Ortográfico. Propõe-se que a ortografia se torne homogénea nos países de Língua Portuguesa. Que, para aproximar a realização gráfica da realidade fonética da língua, a palavra acção passe a ser escrita como ação.

Colonialismo linguístico? Talvez. Não é inocente que o acordo seja feito neste momento. Ninguém duvide que razões económicas, mais do que culturais, movam este processo. A CPLP é uma organização recente que desde o primeiro momento percebeu que é fundamental uma Língua comum para uma verdadeira projecção internacional. É preciso que todos falem a mesma língua, se queremos construir uma torre que chegue aos céus.

Só que as Línguas são instituições muito bem vigiadas. Para garantir o respeito pelo seu património histórico-cultural, ou por outros motivos, aparece sempre uma polícia pronta a defendê-las.

Veja-se o Acordo Ortográfico de 1911. Foi mais radical do que este que agora é proposto. Eliminou boa parte das grafias etimológicas que ainda existiam, substituindo-as por grafemas mais próximos dos fonemas. Foi quando pharmácia passou a ser escrito como actualmente: farmácia.

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Organizado pela Universidade Aberta, teve lugar a 30 e 31 de Outubro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, o Primeiro Simpósio de Educação a Distância dos Países de Língua Oficial Portuguesa. O simpósio, que abriu com uma alocução de Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta, aprovou no final uma declaração de conclusões. A importância da questão, num momento em que o e-learning e o b-learning estão em cima da mesa, leva-nos a publicar aqui essas conclusões, cuja pronta disponibilização agradecemos ao nosso colega Carlos Reis.

 

 
A Educação a Distância como Factor de Desenvolvimento
Por uma Comunidade Educativa de Língua Portuguesa
 

O Primeiro Simpósio de Educação a Distância dos Países de Língua Oficial Portuguesa constituiu um momento privilegiado para análise e discussão de temas de interesse comum, por parte de diversos agentes: instituições de ensino superior, professores e investigadores em ensino a distância, responsáveis políticos, etc. Os quatro vectores de reflexão a seguir enunciados correspondem a temas fortes contemplados pelo Simpósio, ao mesmo tempo que apontam, em jeito de reflexão conclusiva, para prioridades estratégicas articuladas entre si.

 

1. A Comunidade  Educativa de Língua Portuguesa

No quadro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) deve ser sublinhado o valor coesivo da educação em língua portuguesa. Esse valor coesivo joga em favor do reforço de uma comunidade congraçada pelo idioma, ao mesmo tempo que contribui para fecundas trocas de experiências, para a activação de projectos de cooperação transnacionais na área da educação e para a solidária afirmação do processo educativo como factor de desenvolvimento dos povos e dos países de língua oficial portuguesa. A configuração e consolidação de uma Comunidade Educativa de Língua Portuguesa, no seio da CPLP, levará, deste modo, à consagração de uma instância decisiva de reforço comunitário, instância que é também um domínio fundamental para a emancipação da pessoa humana.

 

2. A Educação a Distância

A partir do potencial pedagógico do ensino a distância, designadamente tendo em conta o contributo decisivo que ele tem recebido por parte das tecnologias da informação e da comunicação, bem como os consideráveis avanços pedagógicos que esse contributo tem propiciado, afirma-se a relevância política, social, económica e cultural da educação a distância. Entendida como estádio superior do ensino a distância, ela constitui uma área de intervenção  muito significativa para os países em vias de desenvolvimento, afectados ainda por limitações várias, tanto de ordem material como de ordem humana. Mas também é certo que, mesmo em países desenvolvidos, não cessa de crescer a  importância da educação a distância; isso mesmo é atestado pelos cerca de 100 milhões de estudantes que presentemente têm acesso, em todo o mundo, a programas de educação a distância.

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Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.

Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou.

Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.

Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulburbio.

No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.

Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?

Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?

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Nuno Júdice é um dos mais importantes poetas portugueses de hoje. Tendo-se estreado em volume em 1972, com A Noção de Poema, editou em seguida uma série ininterrupta de livros que configuram uma obra das mais singulares da poesia portuguesa contemporânea mas, para além disso, dão voz a uma dedicação sem téguas à escrita, aliás um dos seus temas centrais, na poesia mas não apenas. A última reunião da sua obra poética é o volume Poesia Reunida 1967-2000. Poeta traduzido em várias línguas, conquistou já os mais importantes prémios literários portugueses. Tem também uma obra significativa na ficção, no teatro ou no ensaio. É professor de literatura portuguesa na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Nuno Júdice disponibilizou-se a responder a algumas perguntas nossas sobre os poemas «Lusofonia» e «Complexos». Transcrevemos em seguida esse diálogo e agradecemos, ao poeta e ao colega, a disponibilidade revelada.

 

EPL Os poemas «Lusofonia» e «Complexos», do seu recente livro A Matéria do Poema, parecem denunciar algum cepticismo sobre a «lusofonia». O primeiro poema explora uma situação em que as mesmas palavras já não significam o mesmo em Portugal ou no Brasil e conclui por uma espécie de desistência: «mudar de café», evitando assim as palavras problemáticas. É essa a sua posição em relação à lusofonia?

NJ  É sem dúvida um poema irónico, mas que tanto se pode aplicar ao Brasil como em relação a lugares diferentes de Portugal onde ainda podem surgir divergências de sentido em relação a determinadas palavras. É uma situação efabulada mas que, de certo modo, nasceu de uma edição de uma antologia minha no Brasil onde havia poemas em que usava a palavra rapariga. Pus a questão de saber se isso se prestaria a equívocos, dada a significação pejorativa que o termo tem nesse país, mas liminarmente a responsável pela edição disse-me que o problema não se colocaria dado o contexto em que é usado.

EPL O poema «Complexos» explora a ambiguidade entre «a minha língua» e «a língua de Camões» e deseja uma língua «quietinha, sem complexos de grandeza». Tornou-se mais céptico quanto à afirmação internacional do português após ter desempenhado funções relevantes, na área da política cultural, em Paris?

NJ Houve, em certo momento da dissolução do mito imperial, depois do fim das colónias, a tentação de substituir esse poder territorial por aquilo que Pessoa anteviu como o império da Língua. Falava-se dos duzentos milhões de falantes e dos múltiplos espaços onde o português está presente como se isso correspondesse a uma utilização concreta das potencialidades dessa vasta comunidade linguística. Existe sem dúvida uma realidade que se impõe em termos numéricos, e que pode vir a dispor de uma efectiva presença no plano internacional através da língua comum; mas a afirmação cultural que lhe está associada é mais do que reduzida, pesem embora alguns passos importantes que vão desde as traduções nalgumas línguas de vasta divulgação, como o inglês ou o espanhol, o Nobel de Saramago, e sobretudo a «globalização» pessoana. Mas falta uma consciência política da língua como o mais eficaz agente de afirmação da importância das culturas que se formaram a partir dela, embora alguns passos se estejam a dar nesse sentido: refiro-me à tentativa de articular o ensino do português entre Portugal e os países lusófonos. A questão mais complexa tem a ver com o Brasil; e quando se critica o afastamento desse país em relação a nós, pergunto se o desequilíbrio não se dá em sentido inverso, dado que, por exemplo, não existe equivalência entre o número de alunos e de professores de literatura portuguesa nas universidades brasileiras e o risco de extinção do ensino das literaturas lusófonas em Portugal. (mais…)

COMPLEXOS

Vieram dizer-me que a minha língua
é a maior que há no mundo. Ao espelho, ponho a língua de fora: é
a minha língua, é portuguesa, mas não sei por que é que a consideram
a maior língua do mundo. Por muito que veja a minha língua ao espelho,
a língua que vejo não é maior nem mais pequena do
que milhões de outras línguas que há neste mundo. A não ser
que a minha língua não seja portuguesa, ou que uma língua
não tenha nacionalidade. Ponho-a de fora: e em vez de português
falo espanhol, falo inglês, falo francês, falo as línguas que sei
e as que não sei para que a minha língua deixe de ser portuguesa;
mas continuam a dizer que a minha língua é portuguesa,
e que é a maior que há no mundo. É, pelo menos, tão grande
como a língua de Camões, ou como a língua de Pessoa; a não ser
quando Camões fala castelhano, ou quando Pessoa fala inglês.
«E se me deixassem a língua em paz?» peço. Não serve de nada.
«Não vês que a tua língua é a maior do mundo? Como tu, duzentos milhões
têm a mesma língua; por isso, é a maior que há no mundo,
sem pensar nas outras que podem ser faladas por mais gente mas não
são tão grandes como a tua.» E volto a olhar a minha língua
ao espelho. «É a língua do Camões, a língua do Pessoa…» E sinto
um sabor estranho na minha boca, ao saber que tenho lá dentro duas
línguas, além da minha. E se eu bater com a língua no céu da boca? É
a minha língua, ou é a do Camões, ou é a do Pessoa, que vem bater
no céu da minha boca? E agarro na língua, para ver qual é a minha,
e arrancar da minha boca as línguas que não me pertencem, e devem
estar ressequidas de um e de mais séculos, se forem a do Camões e
a do Pessoa. É que eu não quero ter a maior íngua do mundo; quero,
apenas, que a minha língua esteja quietinha, sem complexos
de grandeza, no lugar em que preciso dela para ir bater no céu
da boca, sem ter de empurrar para o lado as línguas do Camões, do Pessoa,
ou as dos outros duzentos milhões que fazem com que a minha língua
seja a maior do mundo.

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