Português


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O Instituto Camões acaba de abrir, no seu Centro Virtual, a Biblioteca Digital Camões, que seguramente se tornará em breve uma ferramenta de trabalho fundamental na área dos Estudos Portugueses e Lusófonos. Definida como «um repositório da cultura em língua portuguesa, tendo como principal critério a publicação de obras integrais, para leitura gratuita, sem necessidade de registos ou subscrição», a Biblioteca Digital Camões «tem autores e edições no domínio público, mas também em edições actuais, protegidas por direitos conexos (fixação de textos, notas críticas, prefácios e posfácios…etc.), obras protegidas por direitos e de autores vivos». Sobre os níveis diferenciados de acesso, bem como todas as questões relacionadas com direitos de autor, veja-se esta página.

Quanto aos títulos disponíveis, que vão de artigos académicos a livros, oscila entre um título isolado, no caso de Biografias, e os 480 na área da História. O item Língua oferece 43 títulos, Literatura (obras integrais de que é possível fazer download) 63, Estudos Literários/Crítica Literária 143. Mas há ainda Educação, Infantil, Cinema, Arte, etc.

Este é pois um daqueles casos em que é difícil colocar restrições aos elogios a fazer, sobretudo se pensarmos em todos aqueles que, no estrangeiro, se debatem com falta de instrumentos de apoio para o ensino da língua, literatura e cultura portuguesas.

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Jorge Fernandes da Silveira é Professor Titular da Faculdade de Letras da UFRJ, onde se doutorou, em Literatura Portuguesa, em 1982, e formou alguns dos melhores estudiosos brasileiros da literatura portuguesa. Foi Professor Visitante nas Universidades Brown (onde se pós-doutorou), Santa Barbara at California, Minnesota e Salamanca. Tem obra vasta, dispersa por revistas de referência – Colóquio/Letras, Relâmpago, Metamorfoses, Cadernos de Literatura Comparada, Veredas, Scripta, Semear – e editoras de Portugal e Brasil. Destaquem-se, além de obras que organizou e outras de cariz antológico (sobre Cesário Verde ou Luiza Neto Jorge), os livros Portugal Maio de Poesia 61 (Lisboa, 1986); Verso com verso [Estudos de Poesia Portuguesa] (Coimbra, 2003); O Beijo Partido – Uma Leitura de O Beijo Dado Mais Tarde: Introdução à Obra de Llansol (Rio de Janeiro, 2004); Lápide & Versão: O Texto Epigráfico de Fiama Hasse Pais Brandão (Rio de Janeiro, 2006); O Tejo é um Rio Controverso – António José Saraiva contra Luís Vaz de Camões (Rio de Janeiro, 2008). Agradecemos a Jorge Fernandes da Silveira esta sua primeira colaboração com o nosso blogue.

 

Notas Sobre Ensino e Aprendizagem
(de acordo com algumas máximas contemporâneas)

 

Devíamos já saber de cor: “o maniqueísmo é o maior inimigo do pensamento”. Noutras palavras: o que se apresenta sob a representação do excesso transforma em adversários intolerantes, às vezes truculentos, aqueles que reivindicam o conhecimento como uma prática pedagógica em que o acadêmico e o político têm igual peso e responsabilidade em termos de conduta e ação, quer na visão da Universidade como o espaço público e sem fronteiras em que se divulga o ideal democrático-burguês de liberdade, igualdade e fraternidade, quer na visão de um espaço mais restrito, as suas Faculdades, ou num mais específico, a Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, em que é a partir do ensino da língua portuguesa e suas literaturas e da interlocução entre elas e línguas e literaturas de diferentes culturas e estados que se aprende a ação política da cidadania de ser sujeito em liberdade, consciente de estar sujeito a um mundo multicultural. É ensinando que se aprende. E isto é um lugar-comum. E, como todos, banalizado ou sacralizado, e, logo, de difícil compreensão ou aceitação. Há um lugar comum, contudo, que professores e alunos congrega: a sala de aula. E a sala de aula exige assistência, freqüência, ao que nela se exercita como instrumentos de avaliação do rendimento acadêmico: aulas, testes, provas e seminários. No que respeita aos corpos docente e discente, em nome de quê esta exigência pode ser desrespeitada? Não é surpresa para um órfão da Ditadura constatar que há brava gente nova, universitários de segunda e terceira geração, cuja entidade de classe afirma que manter viva a lembrança do mal passado no presente é a única garantia de liberdade no futuro. Tal cuidado de ordem política, contudo, pode correr o risco de supervalorizar exemplarmente os erros passados, sem a disciplina da autocrítica. Não causa surpresa, igualmente, a defesa de que professores universitários cada vez mais se sujeitem a exigências de órgãos financiadores que reduzem a produção acadêmica a números e prazos, não claramente identificados com interesses de ensino da Pós-Graduação e, sobretudo, da Graduação. O que não surpreende, porém, incomoda e motiva duas hipóteses de reflexão. A primeira é a de haver um corpo discente em que o político se sobreponha ao acadêmico; a segunda é a de haver um corpo docente em que o acadêmico seja superior ao político.

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Acabam de sair as Actas da Conferência Internacional sobre o Ensino do Português, Lisboa: Min. da Educação/DGIDC, um volume que seguramente se tornará uma peça de referência na bibliografia. Do texto de apresentação do volume, da autoria de Carlos Reis, recebemos, enviado pelo autor, um excerto fundamental, que aqui transcrevemos, com um renovado agradecimento ao nosso colega. Permitimo-nos chamar a atenção para a forma como neste texto, para lá da necessária denúncia da doxa anti-humanista que hoje se abate sobre o ensino do Português em toda a sua espessura linguística, cultural e estética, se apontar já um caminho futuro de diálogo entre as Humanidades e as ciências e tecnologias, indispensável para irmos pensando as novas humanidades.

 

O ensino do português acha-se hoje fortemente condicionado, se é que não ameaçado, por uma espécie de doxa anti-humanista que, persistindo como persiste, terá um efeito devastador no nosso futuro próximo, conforme já se vai percebendo pela forma como os nossos jovens escrevem, falam e lêem. Pior: pouco lêem. Ninguém (…) contesta, por certo, a bondade de uma política de investimento na investigação científica, nas tecnologias puras e duras e nas chamadas ciências exactas; errado será se esse investimento trouxer consigo a míope desqualificação de áreas do saber que directa ou indirectamente concorrem para que o ensino da língua materna recolha os ensinamentos com que se renova e aprofunda.

A este propósito, talvez não seja descabido lembrar aqui o exemplo (mau exemplo) de um certo engenheiro naval, formado em Glasgow, que, à força da radical vivência da ciência e da técnica desembocou num tédio sem retorno nem remissão, até ao ponto de afirmar, no mais célebre dos seus poemas da maturidade: “A aprendizagem que me deram/desci dela pela janela das traseiras”. Ou então e insistindo na ideia de que cada coisa vale o que vale sem ter que ignorar nem rasurar outras coisas, importa lembrar, como o têm feito autores insuspeitos (…) as Humanidades – e, no seu âmbito, o ensino do português – podem e devem dialogar intensamente com áreas do saber que, da informática às neurociências, passando pela sociologia ou pela matemática, nesse diálogo formulam contributos próprios e reciprocamente fecundos, conforme  recomenda  a epistemologia da interdisciplinaridade.

 

Carlos Reis

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Na passada sexta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, teve lugar mais um seminário sobre os novos programas de Português para o Ensino Básico. No momento em que os trabalhos da equipa que prepara esses programas se aproximam do fim, é escusado chamar a atenção para a importância de que esta revisão programática se reveste. Carlos Reis, Professor Catedrático da FLUC e coordenador da equipa, leu nesse seminário um texto de que publicamos aqui um excerto decisivo. Agradecemos ao Professor Doutor Carlos Reis mais esta colaboração com o nosso blogue (a que se seguirá, em breve, outra modalidade de colaboração, na forma de uma rubrica fixa).

 

O trabalho até agora levado a cabo não se concretizou à margem de coordenadas que nele se reconhecerão de forma variavelmente explícita. Para além dessas coordenadas, foram devidamente ponderadas expectativas e circunstâncias que não podiam deixar de ser tidas em conta. Dessas expectativas e circunstâncias podem ser destacadas as seguintes:

• O ensino do Português desenrola-se hoje num cenário que apresenta diferenças substanciais, relativamente ao início dos anos 90 do século passado. Exemplo flagrante disso: a projecção, no processo de aprendizagem do idioma, das ferramentas e das linguagens facultadas pelas chamadas tecnologias da informação e da comunicação, estreitamente associadas a procedimentos de escrita e de leitura de textos electrónicos e à disseminação da Internet e das comunicações em rede.

• Nos últimos anos, foram bem audíveis vozes que reclamaram uma presença efectiva dos textos literários no ensino da língua, valorizados na sua condição de testemunhos de um legado estético e cultural. Uma tal condição não deve ser desqualificada por utilizações pedagógicas que a desvirtuem, com prejuízo da possibilidade de muitos jovens terem acesso a tais textos; por muitas dificuldades que se levantem à integração dos textos literários nos programas de Português, é obrigação da escola trabalhar para que essa integração seja inequívoca e culturalmente consequente.

• Do mesmo modo, não foram poucos os testemunhos que sublinharam a necessidade de se acentuar, no ensino do Português, uma componente de reflexão expressa sobre a língua, sistematizada em processos de conhecimento explícito do seu funcionamento e da sua gramaticalidade, sem que isso se traduza necessariamente numa artificial e rígida visão prescritiva da nossa relação com o idioma.

 

Carlos Reis