Poetas e Versejadores


bule

Correia Garção tende a restringir a totalidade efémera à privacidade do ambiente doméstico, como se fosse neste aspecto mais recatado e menos mundano do que o Abade de Jazente. Mas a sua versão de boa vida inclui também toda a materialidade adjacente, em relação estreita com o sujeito, conferindo maior densidade à experiência privada do prazer e da convivialidade. Vejamos um soneto emblemático:

O louro chá no bule fumegando 
De Mandarins e Brâmanes cercado;
Brilhante açúcar em torrões cortado;
O leite na caneca branquejando;

Vermelhas brasas alvo pão tostando;
Ruiva manteiga em prato mui lavado;
O gado feminino rebanhado,
E o pisco Ganimedes apalpando:

A ponto a mesa está de enxaropar-nos.
Só falta que tu queiras, meu Sarmento,
Com teus discretos ditos alegrar-nos.

Se vens, ou caia chuva, ou brame o vento,
Não pode a longa noite enfastiar-nos,
Antes tudo será contentamento.

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A domesticidade constitui em Setecentos um dos lugares simbólicos na dignificação do verso efémero, uma vez que conjuga o sentido moderno da intimidade com a vida material que definirá o conforto emergente. Por esta altura, a percepção do conforto adquire o carácter de satisfação auto-consciente que vem a dominar a sua acepção moderna, na sequência de mutações ocorridas tanto no plano psico-social, como especificamente no âmbito da cultura material (*). O versejador lusitano que melhor expõe este encontro localmente, no instante crítico em que se cruza com o mimetismo proto-doméstico do retiro bucólico, é sem dúvida alguma Correia Garção. Comecemos no entanto com um curioso soneto do Abade de Jazente, porque ele nos permite situar a cena doméstica e desenhar com alguma precisão as suas fronteiras no âmbito da totalidade efémera aqui em causa. Eis um retrato setecentista da vida como ela “foi”, para quem rememora no soneto em causa:

 

Ora a pesca, ora o jogo, ora o passeio,
Ora da França um livro me entretinha,
E ora na casa alheia, ora na minha
Dos amigos lograva o doce enleio.

Ora a pintada truta, ora o recheio,
Ora a gorda perdiz na mesa eu tinha;
Sustentava cavalos, cães mantinha,
E via o pátio meu de pobres cheio.

Ora talvez das Musas no regaço
Cantava com cadente suavidade,
Fazendo alguma delas o compasso:

Mas tudo enfim lá vai; foi com a idade:
E somente (que tristes versos faço!)
Me ficam as lembranças, e a saudade.

Neste mundo que o autor pinta com mão efémera, abarcando as diversas esferas de uma vida, é sobretudo no espaço doméstico que a apreciação dos prazeres se pode tornar mais intensa, mormente para um espírito letrado. A domesticidade agrega a vida afectiva e sensorial do sujeito, na sua dimensão familiar, libidinal (tudo leva a crer que também no caso deste Abade tal faria parte da casa), e na convivialidade electiva com os amigos e com os livros. O tom elegíaco do soneto dramatiza a perda iminente destas “coisas” prazenteiras, até porque a descrição destaca a boa vida de um Abade em finais de Setecentos, suficientemente farto quanto a moeda para ter o «pátio» (não o templo, note-se) de «pobres cheio».

 

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fernando

Sobre Fernando Matos Oliveira, docente da FLUC com actividade repartida pelos cursos de Línguas e Literaturas e Estudos Artísticos, já aqui falámos aquando do seu recente doutoramento. Referimo-nos de novo ao nosso colega para anunciar a abertura da sua coluna setecentista neste blogue, com o título «Poetas e Versejadores». Tratando-se de um dos grandes, e raros, especialistas na literatura portuguesa desse período – que, no seu caso, vai do tardo-Setecentos até ao primeiro quartel de Oitocentos – esta é uma «contratação» que reforça claramente o plantel da nossa equipa, para lá de diversificar ainda mais a oferta deste blogue.