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Ao abrigo do projecto de cooperação FLUC/Universidade Eduardo Mondlane (Maputo) financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian,  anuncia-se a realização, na FLUC, das seguintes conferências abertas, proferidas pelo Professor Nataniel Ngomane:

“Formação da literatura moçambicana: questões  (1ª parte). Moçambique: do país de poetas ao romance feminino”. 2ª feira, 18 de Maio, pelas 16 horas (sala 15 SJ);

Tendências actuais da literatura moçambicana: as escritas transculturais”. 4ª feira, 20 de Maio, pelas 11 horas (Anf. II);

“Formação da literatura moçambicana: questões (2ª parte). A era pós-colonial: as mulheres, a etnicidade, a liberdade estética”. 4ª feira, 20 de Maio, pelas 18 horas (sala 16 SJ).

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Hoje, pelas 18 h, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, terá lugar a 8ª sessão de Os Livros Ardem Mal na temporada de 2008/09. O convidado é o músico António Pinho Vargas, que além de pianista, compositor e professor de música é ainda ensaísta com dois livros editados, o mais recente Cinco Conferências (2008). O painel será constituído por Luís Quintais e Osvaldo Manuel Silvestre, que moderará.

Na primera parte da sessão serão apresentados os seguintes títulos:

  • Ana Cristina Ferrão, Conta-me Histórias. Xutos & Pontapés, 2ª ed. revista e aumentada, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009. [978-972-37-1414-2]
  • André Levy et. al. Evolução: História e Argumentos. Lisboa, Esfera do Caos. [ISBN: 978-989-8025-55-5]
  • André Levy et al. Evolução: Conceitos e Debates. Lisboa, Esfera do Caos. [ISBN: 978-989-8025-75-3].
  • Criatura, nº 3, 2009. [ISBN 978-989-95921-1-7] 
  • Herman Melville, Poemas. Lisboa, Assírio & Alvim. [ISBN 978-972-37-1357-2]
  • John Cheever, Contos Completos I. Lisboa, Sextante. [ISBN: 978-989-8093-87-5]
  • Lawrence Kramer, Porque É a Música Clássica ainda Importante?, Lisboa, Bizâncio, 2009. [ISBN 978-972-53-0410-5]
  • Vitorino Almeida Ventura, As Letras como Poesia, Porto, Afrontamento, 2009. [ISBN 978-972-36-0988-2]
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    Sugestão de Tradução:

  • Dan Sperber, Explaining Culture: A Naturalistic Approach. Blackwell, 1996. [ISBN: 0-631-20044-4]
  • Como toda a gente sabe a vírgula é um dos sinais de pontuação mais desprezados. Há mesmo escritores jornalistas e/ou colunistas que se especializam em não a usar ou em usá-la sempre nos locais errados. E contudo tanta coisa pode depender de uma coisa tão discreta… É o que se aprende com este vídeo não sabemos se promocional se pedagógico em todo o caso profundamente terapêutico. Vejam leiam com atenção que logo perceberão a transcendência da vírgula.

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    Na próxima segunda-feira, 6 de Abril, pelas 18 h, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, terá lugar a 7ª sessão de Os Livros Ardem Mal, uma actividade do Centro de Literatura Portuguesa, na temporada de 2008/09. A convidada é Alexandra Lucas Coelho, jornalista do Público e uma das mais consagradas da sua geração, sobretudo an área da grande reportagem e da cultura, com um livro editado sobre o conflito palestiniano, Oriente Próximo (2007). O painel será constituído por Catarina Maia, Luís Quintais, Rui Bebiano e Osvaldo Manuel Silvestre, que moderará.

    Na primera parte da sessão serão apresentados os seguintes livros: 
     

  • A. M. Pires Cabral, Arado, Lisboa, Livros Cotovia, 2009. [ISBN 978-972-795-287-8]
  • Bénédicte Houart, Aluimentos, Lisboa, Livros Cotovia, 2009. [ISBN 978-972-795-284-7]
  • David Baggett e William A. Drumin, A Filosofia Segundo Hitchcock, Lisboa, Estrela Polar, 2008. [ISBN 978-989-8206-08-4]
  • Edgar Allan Poe, Obra Poética Completa, Tinta-da-China, 2009 [ISBN 978-972-8955-93-9]
  • Irvine Welsh, Porno, Quetzal, 2009 [ISBN 978-972-564-759-2]
  • John Keegan, A Máscara do Comando, Lisboa, Tinta-da-China, 2009. [ISBN: 978-972-8955-86-1]
  • Jonah Lehrer, Proust era um Neurocientista, Alfragide, Lua de Papel, 2009. [ISBN 978-989-23-0234-8]
  • Nuno Bragança, Obra Completa 1969-1985, Lisboa, Dom Quixote, 2009. [ISBN 978-972-20-3726-6]
  • Peter Lamborn Wilson, Utopias Piratas. Corsários mouros e renegados europeus, Porto, Deriva, 2009.[ISBN: 978-972-9250-50-7]
  • Robert Fisk, A Grande Guerra Pela Civilização, Lisboa, Edições 70, 2008. [ISBN 978-972-44-1457-7]
  • Roger-Pol Droit, O Que é o Ocidente?, Lisboa, Gradiva, 2009. [ISBN 978-989-616-297-9]
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    No posfácio à (muito gralhada) edição portuguesa de Camões, décimo capítulo de The Spirit of Romance (1910), Stephen Wilson afirma que Ezra Pound antecipa nesse texto a definição de épica que viria a cunhar no ABC of Reading (1961): “a poem including history”. Já a propósito de Paterson, Éloges ou The Cantos, disse Paul Merchant que o registo autobiográfico neles inscrito constitui a novidade da epopeia do século XX. Narrativa pessoal e história nacional são, precisamente, a matéria poética de Assomada Nocturna. Quanto à primeira, ela não representará a “Autobiografia ortónima” do poema que abre o livro; trata-se antes de uma intimidade que, projectada no coração juvenil, se torna partilhável:

    Ai noites de Assomada
    cobertas do luar
    de todas as insularidades
    derramando-se pelo regaço
    pelos cabelos brancos pela terna tranquilidade
    dos nossos donos das nossas donas
    esparramando-se pelos risos das mães de filho
    pelo precoce afago das domésticas
    pela austera severidade dos pais de família
    fundindo-se na rasa e extrovertida altivez
    nas falas várias dos filhos de Assomada
    enleadas de risos
    sob a luz turva e pardacenta
    das lâmpadas da rua
    mortiças e companheiras

    Cedendo o registo lírico e esse rosto plural do protagonista de Assomada Nocturna, poderíamos então chamar-lhe “poema de formação” (ou Bildungsgedicht). Inocência Mata esteve perto deste entendimento, quando afirmou que o tempo redivivo por NZé di Sant’y Águ “pode considerar-se a fase de «conhecimento do mundo»”; nesta estrofe, e no âmbito do Bildungsroman lusófono, “o precoce afago das domésticas” ou a “austera severidade dos pais de família” não andarão longe, por exemplo, de alguns ambientes recordados em Menino de Engenho, de José Lins do Rego.

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    Para ensinar Português Língua Estrangeira (PLE), como para ensinar qualquer língua estrangeira, a criatividade é um trunfo essencial, ainda que, como ficou exposto na primeira parte deste texto, não seja suficiente para garantir um processo de aprendizagem bem sucedido. Longe vão os tempos em que o estudo de uma língua estrangeira se concebia sob uma perspectiva exclusivamente normativa (aprender francês, por exemplo, equivaleria a aprender e aplicar as regras da gramática francesa). Hoje em dia, é comummente aceite que, no processo de aprendizagem de uma língua estrangeira, dedicar o tempo da aula inteiramente ao estudo das regras gramaticais e à resolução de exercícios não é eficaz. Tendo em conta que uma língua é um meio de comunicação – sem no entanto cair na perniciosa concepção de que o importante é que a mensagem passe, independentemente da correcção do discurso, ideia que não perfilho de todo – há quatro competências comunicacionais a desenvolver no processo de aprendizagem: ouvir, falar, ler, escrever.

    Na criação das suas actividades para a aula, o professor de PLE terá então de considerar o desenvolvimento destas quatro competências, para que os alunos alcancem um real domínio da língua portuguesa. Claro que se pode sempre defender que qualquer actividade em português é útil para alunos que não dominam essa língua: se outro objectivo não houver, os alunos estão em contacto com o português e algum proveito tirarão dessa exposição à língua. Porém, não só isso não é inteiramente verdade como, nesse caso, não estamos longe da lógica combatida no texto precedente, isto é, de que qualquer falante nativo (como o estudante erasmus que nos serviu anteriormente como exemplo) pode cumprir o objectivo de possibilitar um contacto com a língua. Reiteremos pois que nos referimos a um processo de aprendizagem de uma língua, com objectivos que são substancialmente diferentes dos do mero contacto com a língua de estudo, e que exige a presença de um professor especializado.

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    O grau de solidez dos alicerces varia em proporção da altura que se pretende dar à estrutura. Quando se sonha com um topo elevado, investe-se na base todo o trabalho e toda atenção. 

    É curioso como regras tão simples da Física se podem aplicar a várias estruturas sociais que conhecemos. Há alguns anos atrás, ri-me com vontade quando ouvi um conhecido opinion maker português, professor universitário, dizer na televisão que gostaria de terminar a sua carreira como professor do 1º Ciclo do Ensino Básico. Pela exigência que a tarefa requeria, ensinar naquele nível de ensino seria, a seu ver, o topo da carreira de um professor. Hoje envergonho-me da minha reacção ignorante. 

    Quis um conjunto de factores que o meu “baptismo” como professor fosse não só no 1º Ciclo do Ensino Básico mas também no ensino Pré-Escolar. Ao início causou-me impressão. Ensinar inglês a crianças que não conheciam as letras? Como poderia ser possível? Com as primeiras aulas, o que era uma “impressão” transformou-se em inquietação pois as crianças também não sabiam os números! Como poderia ensinar-lhes que “um” era “one” se muitos nem associavam o número à realidade física nem conheciam o seu aspecto gráfico? Depois, essa inquietação deu origem à confusão. Alguns deles não conseguiam ainda distinguir as cores. E a confusão transformou-se em pânico quando muitos adormeciam nas aulas, não controlavam os esfíncteres, choravam sem razão aparente…

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    Quando se passa uma parte da vida académica a estudar um autor, ele vai mudando para nós e mesmo em nós; e quando esse autor apresenta a riqueza e a diversidade de Eça de Queirós, mais natural se torna que se vão sucedendo, para o olhar de quem o estuda, diferentes faces desse vulto com quem convivemos, na excitação da sempre iminente descoberta de coisas novas. As coisas novas que Eça me revelou foram, a certa altura, os seus papéis mais íntimos.

    Pelo fim dos anos 70, não me recordo exactamente quando, António Alçada Baptista, nessa época Director do Instituto Português do Livro, chamou-me a Lisboa para uma conversa. Lá fui, ainda meio travestido de Artur Corvelo, para receber o desafio de estudar o espólio de Eça de Queirós, pouco tempo antes incorporado nos fundos da Biblioteca Nacional pelo seu Director de então, João Palma-Ferreira. Fiquei assustado, fascinado e envaidecido. Assustado, porque eu nada sabia de como se estudava um espólio literário (nessa altura eu mal sabia até o que era um espólio literário, para além de supor que eram papéis velhos e talvez indecifráveis); fascinado, porque me aparecia pela frente, sem que eu o pedisse, a possibilidade de conhecer um Eça a que muito poucos haviam tido acesso; envaidecido, porque o meu nome fora indicado ao Director do IPL por Guerra da Cal, “o Ernesto”, como dizia Alçada Baptista. O inolvidável autor de Língua e Estilo de Eça de Queirós não me conhecia pessoalmente e eu nem sabia que, nessa época, ele vivia em Portugal, numa bela casa do Estoril onde vim a ser visita frequente. Mas desde logo percebi que, para Guerra da Cal, antes das amizades e dos conhecimentos pessoais, importavam outros e mais drásticos critérios, quando se tratava de confiar a alguém uma tarefa com a complexidade da que me esperava.

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    Na passada Primavera, um convidado do Norte de Portugal, de visita à Galiza, iniciou conversa com um professor galego comentando: “Que tal este ano? Muchos problemas por lo de la sequía?”. O professor galego olhou-o incrédulo e apontou-lhe a janela, respondendo, em português: “Mas não vê como chove lá fora? Estamos na Galiza!”. A anedota, infelizmente, é real e vai ocorrendo, com variantes, na maior parte dos encontros, ou mais vale dizer desencontros, galego-portugueses. Por algum motivo inexplicável, os conferenciantes portugueses, convidados pelas universidades galegas, teimam em puxar do melhor castelhano, mesmo quando os anfitriões galegos lhes pedem o favor de falarem em português. Os conferenciantes agradecem, mas interpretam isto como apenas uma oferta amável, retórica, sem validade efectiva. E a sala rebenta com uns sonoros: Buenos días

    Este amor não correspondido da Galiza por Portugal não se circunscreve ao espaço da Universidade. Sentimo-lo no final dos concertos de bandas portuguesas na Galiza e nas invariáveis Muchas gracias, sofremo-lo na avidez por Lobo Antunes e Pessoa nas livrarias galegas e na respectiva indiferença pelo livro galego a sul do Minho, suportamo-lo de cada vez que um português pergunta a um galego pela tourada ou pelo flamenco.

    Nisto, tenho notado que os brasileiros são mais atentos. Se são entendidos em Português, é nessa língua que falam. E chegam a chamar Portugueses do Norte aos galegos, que com isto se comovem até às lágrimas. Caetano Veloso, por exemplo, aprendeu a falar português na Galiza, e no último concerto que deu em Santiago de Compostela não se lhe ouviu nem um arranhão no portunhol. Mas a compreensão da complexidade dos vários territórios no espaço chamado Espanha deveria tê-lo alertado para que a proximidade entre o Português e o Galego é extraordinária, mas não ilimitada. Fechando o concerto com a canção “A luz de Tieta”, procurou que o público repetisse o refrão: “Tieta…eta…eta….“. E não entendeu que o público, mudo, se recusasse a gritar por “Eta”.

    Ana Bela Almeida

    resentidos

    A nossa exploração da Galiza moderna começa com uma canção mítica que já nos anos 80 do século XX tinha sido destacada pela revista portuguesa Blitz como exemplo paradigmático do underground galego.  “Galicia caníbal” do grupo Os Resentidos, liderados pelo poeta e artista multimédia Antón Reixa, pertence aos tempos em que a “movida” viguesa estava no seu auge. O título do disco “Fai un sol de carallo”, no qual apareceu esta canção em 1986, quando foi o hit do Verão, tornou-se já numa frase feita em galego.  Os Resentidos, com os seus textos críticos e irreverentes, cheios de iconoclastias e vanguardismos, provaram que era possível cantar rock em galego e canibalizar a própria cultura. Hoje são reconhecidos, junto com os Siniestro Total, como o grupo que desencadeou toda a cena rock cantada em galego. As bandas portuguesas aperceberam-se logo do seu valor inovador: No dia 3 de Outubro de 1986, os Mão Morta e os Pop dell’Arte, actuam com Os Resentidos no Kremlin de Vigo e cantam a coro o “Galicia caníbal” (vejam também V. Junqueira: Mão Morta: narradores da decadência. Famalicão: Quasi 2004). Posteriormente, produziu-se um vídeo cheio de alusões políticas e de crítica social:

     

     

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    Confirma-se: há vida lusófona a norte do Minho. Na secção “Galiza Canibal” (nome roubado ao grupo de rock Os Resentidos), Ana Bela Almeida e Burghard Baltrusch, dois estrangeirados que leccionam Estudos Portugueses em universidades do berço de Portugal (leia-se Galiza ou Galicia com [θ] intervocálico), prometem mastigar um pouco de tudo – contanto que não faça mal aos dentes: da dura sobrevivência dos Estudos Portugueses além-Minho, passando pelas novidades na área da língua, cultura e literatura galegas, sem perderem de vista as ondas do mar de Vigo, a rebeldia de Rosalía, as vacas de Lupe Gómez e o licor café.

     

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    Burghard Baltrusch é Professor agregado de Literatura Lusófona e Teoria da Tradução na Universidade de Vigo. Coordenador do Mestrado em Tradución & Paratradución e presidente da Asociación Internacional de Estudos Galegos.

    Áreas de Investigação: Fernando Pessoa, Literatura Portuguesa e Galega Contemporâneas, Teoria da Tradução, Crítica Feminista. Para uma bibliografia parcial veja-se http://webs.uvigo.es/paratraduccion/paratraduccion/PublicacionesGrupoPARATRADUCCION.pdf 
     
    ana-belaAna Bela Almeida é ex-aluna de Estudos Portugueses na FLUC e na Universidade Nova de Lisboa. Foi leitora de Português em Santa Barbara (Califórnia), Vigo e Corunha. Prepara doutoramento a apresentar à Universidade da Corunha.

    Traduziu A Ovelha Negra e outras fábulas, de Augusto Monterroso. Colabora no blogue Os Livros Ardem Mal.

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    Depois, veio o meu Eça mais, digamos, “escolar”. Pelo fim dos anos 70, início dos anos 80, ainda se lia alguma coisa nas escolas secundárias e Os Maias eram leitura “obrigatória”. Nunca gostei da expressão: para mim, a leitura não deve ser “obrigatória”, muito menos a d’Os Maias. Surgiu-me então a ideia de fazer alguma coisa de semelhante ao que eu lia em prestimosas colecções didácticas, sobretudo francesas; e tendo conversado sobre o assunto com uma antiga colega (por onde andará?), a ideia consolidou-se: a minha Introdução à leitura d’Os Maias, que publiquei, de novo na Almedina, em 1978, teve uma primeira tiragem de 12 500 exemplares,  número que obviamente achei desmedido. Mas quando verifiquei que aquela tiragem se esgotara em menos de um ano, pude confirmar a ideia de que o sagaz Joaquim Machado, com o seu faro editorial, dominava como poucos o mundo da  edição e o seu difícil mercado.

    O livrinho ainda aí anda, já cansado de tanta reimpressão, de tanta fotocópia e de tantas imitações, umas disfarçadas, outras nem tanto. Vendeu, até hoje, uns 110 mil exemplares e fica na minha memória de autor como um momento decisivo em que percebi que era necessário e possível escrever claro sobre Eça de Queirós e sobre o seu grande romance.

    Carlos Reis

    tragico

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    bule

    Correia Garção tende a restringir a totalidade efémera à privacidade do ambiente doméstico, como se fosse neste aspecto mais recatado e menos mundano do que o Abade de Jazente. Mas a sua versão de boa vida inclui também toda a materialidade adjacente, em relação estreita com o sujeito, conferindo maior densidade à experiência privada do prazer e da convivialidade. Vejamos um soneto emblemático:

    O louro chá no bule fumegando 
    De Mandarins e Brâmanes cercado;
    Brilhante açúcar em torrões cortado;
    O leite na caneca branquejando;

    Vermelhas brasas alvo pão tostando;
    Ruiva manteiga em prato mui lavado;
    O gado feminino rebanhado,
    E o pisco Ganimedes apalpando:

    A ponto a mesa está de enxaropar-nos.
    Só falta que tu queiras, meu Sarmento,
    Com teus discretos ditos alegrar-nos.

    Se vens, ou caia chuva, ou brame o vento,
    Não pode a longa noite enfastiar-nos,
    Antes tudo será contentamento.

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    Quando me apresento como professor de Português Língua Estrangeira (PLE), é frequente gabarem-me a sorte de ter um trabalho tão criativo. Mas a verdade é que, como qualquer outro professor, o professor de PLE precisa de aliar à indispensável criatividade o rigor. Persiste no imaginário de muitos a ideia de que o único requisito para ensinar uma língua é tê-la como língua materna (eu sei falar português, logo eu posso ensinar português), ou seja, de que ensinar a própria língua não exige grande preparação nem trabalho. No máximo, admite-se que um professor de português está mais qualificado para desempenhar essa tarefa, sem se considerar todavia que o ensino de português a falantes de outras línguas compreenda uma especificidade. A realidade contraria esta ideia: grande parte dos professores de português do ensino primário e secundário vêem-se em sérias dificuldades quando acolhem numa turma um aluno com conhecimentos incipientes da língua portuguesa ou que a não sabe falar de todo.

    Imaginemos, como exemplo que nos guiará ao longo deste texto na tentativa de definir uma especificidade do professor de PLE, a seguinte situação: um estudante português que participe num programa de estudos erasmus num país estrangeiro tem aí a ideia e a oportunidade de ensinar português a estrangeiros com o objectivo de ganhar uns trocos (vida de erasmus oblige). Rapidamente se aperceberá de que não tem grandes hipóteses de sucesso se para isso contar unicamente com o conhecimento empírico que todos temos da nossa própria língua. Vejamos porquê.

    É sabido que a aprendizagem de uma língua é um trabalho que exige método – logicamente, o ensino da língua também o exige. Sem definir um método de trabalho, dificilmente um professor (ou, no caso, um estudante erasmus) conseguirá ensinar de forma eficaz um estrangeiro a falar, a compreender, a escrever, a ler em português. É claro que muitos indivíduos que não falam português, imersos num ambiente onde só se fala essa língua (a chamada situação de input), acabarão por alcançar competências mínimas em cada uma dessas áreas ou, em palavras mais simples, acabarão por conseguir desenrascar-se. Todos temos conhecimento de casos semelhantes, alguns extraordinários, quanto mais não seja de portugueses imigrantes que se integraram noutras comunidades linguísticas sem estudos aprofundados, isto é, através do “ouvido”. Contudo, para que não haja confusões, sublinho que estamos a falar do ensino de língua estrangeira (que aliás muitas vezes não acontece em situação de input), em que o objectivo da aprendizagem não é conseguir desenrascar-se, mas sim efectivamente desenvolver capacidades nesses diferentes domínios.

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    Começo pela leitura de um título de J. L. Hopffer C. Almada publicado no primeiro número da revista Lusografias: “Estes poetas são meus. De todo o orgulho”. Problemáticas actuais da lusografia e da universalização na literatura cabo-verdiana”. A parte destacada, parcialmente repetida na revista Confraria, é um verso de Carlos Drummond de Andrade. No texto a que pertence, “Consideração do Poema”, ele introduz uma acção de graças próxima daquela que Rui Knopfli praticou em “Contrição”. Agora sou eu que devo agradecer a Osvaldo Alcântara, autor de “Capitão das Ilhas” , o título que proponho para esta coluna. A expressão recorda ainda Gabriel Mariano, que escreveu o ensaio “Osvaldo Alcântara. Caçador de Heranças ou Inquietação Social”; bem como, enfim, os empenhados heredipetae que o latinista Baltasar Lopes da Silva terá oferecido a Osvaldo Alcântara.

    Além de dar à escrita o que é da escrita, a segunda parte do citado título de J. L. Hopffer Almada designa o processo que, genericamente, atribuímos à literatura cabo-verdiana actual: a universalização. Ainda que, no manual da Universidade Aberta, Pires Laranjeira situe o período do Universalismo entre 1966 (Exemplo Geral) e 1983 (Ponto & Vírgula), deve reconhecer-se que as convenções que definem o período seguinte, dito da Consolidação, decorrem ainda desse movimento universalizante inaugurado – ou recuperado – pelos exemplos de João Vário.

    Mas Cabo Verde não deixou entretanto de fazer parte do universo; pelo contrário, os últimos anos produziram poemas em forma de livros que, como vem sugerindo Almada, dão corpo a um pendor ou paradigma épico, também ele constitutivo do estado actual da literatura cabo-verdiana. Além de Pedras de Sol & Substância, de Corsino Fortes, e d’O Segundo Livro de Notcha, de T. Tio Tiofe, que em 2001 prosseguiam programas iniciados pelas décadas de 60 e 70, surgiram, por exemplo, Nascimento de Um Mundo (1991), de Mário Lúcio Sousa, Esteira Cheia ou o Abismo das Coisas (1999), de António de Névada, Konfison na Finata (2003), de Kaká Barboza, ou Assomada Nocturna (Poema de NZé di Sant’y Águ) (1993 e 2005), de José Luís Hopffer C. Almada.

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    ruiguilherme

    Rui Guilherme Gabriel nasceu em Torres Novas, em 1970. Na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra licenciou-se em Estudos Portugueses (1997) e fez parte do Núcleo GIRAFA. Depois de leccionar em Cabo Verde (em São Filipe, Fogo, e na Praia, Santiago), cursou o Mestrado em Literaturas e Culturas Africanas e da Diáspora, que concluiu em 2005 com uma dissertação intitulada Teoria e Poética da Crioulidade Cabo-Verdiana. Membro investigador do Centro de Literatura Portuguesa da FLUC, prepara uma tese de doutoramento sobre a poesia cabo-verdiana actual. Tem artigos sobre as literaturas africanas de língua portuguesa publicados em volumes colectivos. É professor do ensino básico e secundário na Região Autónoma da Madeira.

    Caçadores de Heranças será o título da rubrica fixa que Rui Guilherme Gabriel assinará neste blogue, dedicada a matéria cabo-verdiana.

     aguiar

    Os meus primeiros Eças foram, então, atravessados por acasos, por equívocos, por juvenis atrevimentos e por secretas admirações. Provavelmente é assim que os grandes amores começam e é assim também, às vezes a partir de um encontro casual e inesperado, que duram o tempo das nossas vidas.

    Quis o destino e também a minha vontade que um outro Eça começasse a tomar forma dentro de mim, pelo meu desejo de fazer dele o escritor da minha vida. O Eça que conheci nos bancos da Faculdade de Letras de Coimbra foi sobretudo o da Geração de 70, mas já também o de Fradique Mendes, então acentuado nas suas facetas tardo-românticos e tradicionalistas, mais do que nas suas premonições modernistas. No princípio dos anos 70 e na Universidade de Coimbra, o ensino da literatura portuguesa não chegava ao século XX.

    Quase logo depois, apareceu-me pela frente a teoria da literatura, efeito directo do competente e motivador magistério do Prof. Vítor Aguiar e Silva. E pela primeira vez, fiz de Monsieur Jourdain: era a narratologia que estava no caminho que eu ia trilhando, sem que eu me apercebesse de que “falava narratologia”, com a nitidez teórica que ela veio a assumir para mim. Quando se tratou de escolher um autor e um tema para a minha tese de licenciatura (quem se lembra hoje de que tal coisa existia?), a decisão foi óbvia: Eça de Queirós. Foi isso que propus ao Prof. Aguiar e Silva, meu orientador de seminário e de tese; a ideia foi por diante, até por trazer consigo uma articulação com a teoria que, na minha intuição, fazia sentido. (Uns anos mais tarde, Guerra da Cal dir-me-ia: uma boa tese faz-se sempre a partir de uma boa intuição). Tratava-se de estudar a evolução queirosiana à luz das mudanças técnicas que as suas narrativas evidenciam, particularmente no que dizia respeito à formulação dos pontos de vista e à configuração de situações narrativas distintas. E assim percorri quase toda a ficção queirosiana, com inesgotável entusiasmo, com incontáveis fichas e com a alegre crença de que me era possível surpreender um Eça por descobrir. Um Eça que, nesse tempo, para mim era sobretudo um repositório de focalizações, de registos do discurso, de níveis diegéticos e de narradores autodiegéticos. A verdade seja dita: aprendi coisas que me ficaram para a vida.

    A tese fez-se, dei-lhe o título pretensioso e meio darwinista de Metamorfoses Narrativas na Ficção de Eça de Queirós e a Profª Ofélia Paiva Monteiro arguiu-a, com tolerância e com amena simpatia, num dia 27 de Julho que não esquecerei. O saudoso Joaquim Machado editou-a na sua Almedina, teve três edições e, sinceramente, não me envergonho do que fiz, porque me regi por uma convicção forte e por um entusiasmo que quase desculpam o título ainda mais retorcido que nessa edição em livro acabei por dar àquele meu estudo: Estatuto e Perspectivas do Narrador na Ficção de Eça de Queirós. Como diria o próprio Eça, éramos assim absurdos em 1975!

    Carlos Reis

    “Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).”

    Algures, no final do século XVI, uma Companhia atreveu-se a inscrever isto na obra Ratio Studiorum (não confundir com um dos actuais pesadelos do ensino superior, que tem um sentido totalmente diverso). Embora não sejam verdadeiramente texto lusófono, os excertos que me chegaram hoje pelos bons ofícios da Prof. Doutora Ofélia Paiva Monteiro animarão alguns companheiros de jornada. Já agora, poderão enviar para o blogue a vossa definição de “trabalhos domésticos”.

    Por contraste, na próxima semana veremos o regulamento aconselhado ao professor americano (ou professora…), em meados do século XIX.

    Joana Vieira Santos

    studiorum

    “Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).”

    “Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações.”

    Recomenda-se a todos os professores um dia de repouso semanal: “A solicitude por parte dos superiores anima muito os súbditos e reconforta-os no trabalho.”

    “Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo.”

    Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque “a honra eleva as artes.”

    “Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade.”

    “I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência

    Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.

    II. 20. Manter o entusiasmo dos professores

    O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos.”

    Ratio Studiorum da Companhia de Jesus (1599).

    judice

    Hoje, pelas 18 h, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, terá lugar a 5ª sessão de Os Livros Ardem Mal na temporada de 2008/09. O convidado é Nuno Júdice, poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, recém-nomeado director da Colóquio/Letras. O painel será constituído por António Apolinário Lourenço, Luís Quintais e Osvaldo Manuel Silvestre, que moderará.

    Na primera parte da sessão serão apresentados os seguintes livros:

  • Rui Lage, Corvo, Famalicão, Quasi Edições, 2008. [ISBN 978-989-552-397-9]
  • António Pinho Vargas, Cinco Conferências. Especulações Críticas sobre a História da Música no Século XX, Lisboa, Culturgest, 2008. [ISBN 978-972-769-064]
  • Oliver Sacks, Musicofilia. Histórias sobre a Música e o Cérebro, Lisboa, Relógio d’Água, 2008. [ISBN 978-972-708-997-0]
  • David Lodge, A Consciência e o Romance, Porto, Asa, 2008. [ISBN 978-989-23-0368-0]
  • Manuel Loff, O nosso Século é Fascista. O Mundo Visto por Salazar e Franco (1936-1945), Porto, Campo das Letras, 2008. [ISBN: 978-989-625-256-4]
  • Richard Zenith, Fernando Pessoa (Fotobiografias Século XX), Lisboa, Círculo de Leitores, 2008. [ISBN: 978-972-42-4349-8]
  • porbase

    Nos últimos vinte anos, a integração dos catálogos das bibliotecas modificou radicalmente o acesso à informação bibliográfica. Ao permitir o acesso em linha a vastos corpora de dados bibliográficos, os catálogos integrados em acesso público (OPACs) aceleraram extraordinariamente os processos de identificação, localização e compilação de fontes bibliográficas de informação. O desenvolvimento de normas de catalogação e de linguagens de marcação estandardizadas internacionalmente possibilitou a integração da informação e a sua pesquisa agregada. É esta a racionalidade que levou à criação da PORBASE na década de 80, cuja descrição actual é feita nestes termos:

    «A PORBASE – Base Nacional de Dados Bibliográficos é o catálogo colectivo em linha das bibliotecas portuguesas, constituindo a maior base de dados bibliográficos do país na qual colaboram a Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) e mais de 170 bibliotecas portuguesas de variados tipos e dimensões, tanto públicas como privadas. Criada em 1986, a PORBASE é coordenada pela BNP e está disponível ao público desde Maio de 1988.»

    As 170 bibliotecas portuguesas referidas incluem a maior parte das bibliotecas universitárias (incluindo as Universidades de Coimbra, Porto e Lisboa), diversas bibliotecas de institutos politécnicos, várias bibliotecas públicas municipais, e ainda bibliotecas de museus e fundações, de direcções-gerais e outros departamentos governamentais, e de alguns arquivos distritais. Na base de dados são referidos quatro tipos de biblioteca: nacional, universitárias, públicas e especializadas. Estão representadas todas as regiões do país: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve, Madeira e Açores.

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    agualusa

    José Eduardo Agualusa (n. em 1960, no Huambo, Angola) é um escritor talentoso, que, por exemplo, integra bem nos seus escritos anedotas correntes, que sabe usar o método pós-moderno da colagem e mistura. Não sendo um escritor light, longe disso, é como se o seu conceito de literatura visasse, em doses significativas, a boa disposição do leitor e o seu entretenimento, dando-lhe cenários variados (a lógica viajante e turística do século XX), personagens caricatas, episódios “impossíveis”, sem chegar, contudo, a inquietá-lo com uma história que desestabilize as “certezas” reinantes.

    O narrador-osga, animizado, do romance O vendedor de passados é um bom achado e, tal como nesse grande pormenor, o talento do A. surge em situações e frases diversas, conseguindo transformar em oiro, para divertir o leitor, a mais simples anedota, introduzindo-a, quase parecendo a despropósito, mas inteligentemente, numa fala das personagens, funcionando como exemplo ilustrativo, no que parece uma expansão do seu savoir-faire de cronista. Mostra o seu talento quando descreve, por exemplo, a cena de vida fictícia de José Buchmann. O jogo da literatura – a sua ficcionalidade verosímil, isto é, a sua falsidade honesta – atinge alto nível, quando Buchmann, a falsa figura inventada por Félix para o estranho, se vai tornando verdadeira na narrativa, a ponto de o estranho se metamorfosear na identidade de Buchmann que o outro lhe forjou. A maturidade de Agualusa é desse calibre: domina cada vez mais o “imprevisto”; põe uma personagem a fazer uma pergunta, desvia a atenção do leitor com um excurso (ou incursão noutro domínio) e dá a resposta por intermédio de outra personagem dez linhas adiante, surpreendendo na leitura. Interessante. Como divertimento que mimetiza Borges.

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    O Instituto Camões acaba de abrir, no seu Centro Virtual, a Biblioteca Digital Camões, que seguramente se tornará em breve uma ferramenta de trabalho fundamental na área dos Estudos Portugueses e Lusófonos. Definida como «um repositório da cultura em língua portuguesa, tendo como principal critério a publicação de obras integrais, para leitura gratuita, sem necessidade de registos ou subscrição», a Biblioteca Digital Camões «tem autores e edições no domínio público, mas também em edições actuais, protegidas por direitos conexos (fixação de textos, notas críticas, prefácios e posfácios…etc.), obras protegidas por direitos e de autores vivos». Sobre os níveis diferenciados de acesso, bem como todas as questões relacionadas com direitos de autor, veja-se esta página.

    Quanto aos títulos disponíveis, que vão de artigos académicos a livros, oscila entre um título isolado, no caso de Biografias, e os 480 na área da História. O item Língua oferece 43 títulos, Literatura (obras integrais de que é possível fazer download) 63, Estudos Literários/Crítica Literária 143. Mas há ainda Educação, Infantil, Cinema, Arte, etc.

    Este é pois um daqueles casos em que é difícil colocar restrições aos elogios a fazer, sobretudo se pensarmos em todos aqueles que, no estrangeiro, se debatem com falta de instrumentos de apoio para o ensino da língua, literatura e cultura portuguesas.

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    O Ípsilon, suplemento cultural do Público, que acompanha o jornal na edição de sexta-feira, está desde há algumas semanas disponível em linha. Subdividido nos itens Música, Teatro/Dança, Cinema, Livros, Artes, o suplemento oferece uma informação cultural das mais completas da imprensa portuguesa, razão pela qual se saúda esta nova possibilidade de acesso ao seu conteúdo.

    O link para o Ípsilon passará a constar, em permanência, da barra da direita deste blogue, na secção dedicada a Jornais e Revistas.

    leitor

    O  projecto de Programas de Língua Portuguesa para o Ensino Básico está, a partir de ontem, disponível na página da Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação.

    Os comentários ao programa que agora entra na fase de discussão pública  poderão ser enviados para a Equipa de Português da DGIDC, através do endereço electrónico equipadeportugues@dgidc.min-edu.pt.

    osmaias

    Ao longo da minha vida tenho convivido com vários Eças. Com os meus Eças, desdobramentos e feições distintas de um escritor cuja multiforme diversidade não cessou, até hoje, de me surpreender.

    Curiosamente, não me recordo de ter conhecido um Eça escolar. No tempo em que, no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo, eu estudava Português, dominava a selecta, vigorava o respeito e Eça era demasiado ousado para a “boa” moral que regia a pedagogia de então. Estava-se nos anos 60, um tempo que só depois vim a perceber quão decisivo e dramático foi na vida pública portuguesa e no destino da Europa e do mundo; para mim, nessa época, bastavam os Beatles para vagamente entender que havia um fenómeno chamado conflito de gerações,  pacatamente  reduzido quase só ao pequeno escândalo de uns cabelos modestamente compridos e de uma empolgante música de duvidosa afinação. De Eça retenho uma primeira e equivocada imagem: a que me foi sugerida por um título, numa montra de livraria, que rezava assim, por debaixo do nome do autor: Os Maias. Para mim, nesse tempo, os Maias eram um povo nativo da América Latina, talvez porque o dito povo tenha perpassado, diante dos meus olhos, nalguma banda desenhada das que  ilustravam as páginas do Cavaleiro Andante e títulos quejandos. E já que pouco mais  do que isso cabia na minha juvenil ignorância, no “contrato” de leitura que estabeleci com aquela capa, com aquele título e com aquele nome de autor, aquele não era um livro literário, mas (talvez) um livro de História.

    Mais tarde, numa adolescência espigada, percebi que Eça de Queirós e os seus livros eram outra coisa. Foi na biblioteca fixa da Gulbenkian, nesse tempo hospedada numa espécie de desvão da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, que uma capa esbranquiçada da Lello me chamou a atenção. O livro intitulava-se singelamente A Capital e era do tal Eça de Queirós. Levei-o para casa, mais por estar o tal livro classificado como desaconselhado a adolescentes (ah! o doce e inocente sabor das transgressões de então!), do que por outra qualquer razão. E li-o de uma ponta à outra, quase sem parar, num êxtase que só muito depois voltaria a experimentar, provocado por um contemporâneo de Eça chamado Machado de Assis.

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    eca-1873

    Os Antigos diziam: “De minima non curat praetor”. Como quem diz: não percamos tempo com minúcias nem com assuntos menores. Será assim? Se fosse, não daríamos atenção a um certo João Mínimo, afinal tão importante na história literária de um grande escritor português. E não nos deteríamos nas reflexões de um fundamental pensador do século XX, capaz de deduzir uma “filosofia comum” a partir de uma “experiência subjectiva” atenta a pequenos gestos e a manifestações do quotidiano, tudo resolvido em aforismos que desembocaram numa Minima Moralia. Ou então  passaríamos ao largo de um certo Diário Mínimo (e depois, de um Segundo Diário Mínimo), onde, com humor e com perspicácia, se discreteia sobre  conversas com taxistas ou usos do telemóvel.

    Há um Eça de Queirós mínimo? Certamente que sim. Veja-se, por exemplo, o que está na Biblioteca Mínima do Conto e da Novela, coordenada por Luísa Costa Gomes: lá se encontram oito contos de  Eça, ainda assim não tão mínimos como alguns dos textos que escreveu para a Gazeta de Portugal. Por exemplo, os brevíssimos relatos minimalistas do conjunto “Farsas”.

    Confirmo: há uma Queirosiana Mínima, como já houve uma Pessoana Mínima (por Antonio Tabucchi, pessoano máximo) e mesmo uma Política Mínima (por Paulo Ferreira da Cunha, professor de Direito no Porto). A minha Queirosiana Mínima será talvez da mesma família de umas certas “relíquias mínimas” de que se fala n’A Relíquia: “Mas a Sr.ª D. Patrocínio ruminava um escrúpulo ciumento. Não lhe parecia delicado para Nosso Senhor (nem para ela) que se repartissem estas relíquias mínimas antes de lhe ser entregue a ela, como senhora e como tia, na capela, a grande relíquia…”

    Deixo, então, de lado, por agora, as “grandes relíquias” queirosianas e curo das mínimas relíquias: pequenas reflexões, observações avulsas, memórias recônditas. Noutros termos: o meu Eça é feito também de queirosianismos mínimos como os que aqui ficam. O meu Eça e, desde já, os meus Eças.

     

    Carlos Reis

    rabanadas

    kids-leaving-school

    A escola veste-se da gala para receber a desejada festa de Natal. Durante uma tarde, professores e alunos esquecem os cadernos, as canetas, os livros, os verbos, as contas, as regras… Durante uma tarde, canta-se, dança-se, recita-se, mostra-se à comunidade um pouco da vida entre muros. É um dos únicos dias em que a escola se abre verdadeiramente ao «mundo». Pais e amigos vêm à escola. Com visível ar de nostalgia, convivem uns com os outros e recordam, por instantes, os momentos que há 20/30 anos viveram ali, naquelas cadeiras que agora parecem tão pequenas. É a altura de falar com os professores: «Como se porta o meu filho?» – palavras de circunstância que convém não esquecer num dia como este.

    Após ouvir colegas, pais e alunos desejarem-me um bom Natal, quando me preparava para fazer a viajem de regresso a casa, por breves momentos detive-me a contemplar uma imagem que me pareceu assaz sugestiva. Felizes, com as enormes mochilas às costas, as crianças seguiam sorridentes para férias, rodeadas dos pais, irmãos e amigos que, naquela situação, pareciam vir «resgatar» as crianças para si. Não liguei o motor do carro senão quando os vi desaparecer por entre o escuro da noite que já havia caído. Na viagem para casa reflecti sobre aquela imagem. As conclusões foram curiosas.

    A imagem do «resgate» fez-me compreender que a escola é um lugar de passagem cuja influência na vida daquelas crianças é, apesar de tudo, bastante limitada. Mais tarde ou mais cedo, os alunos serão todos «resgatados». Nas férias, depois de nove anos, doze, ou mesmo ao fim de dezassete ou dezoito anos, a sociedade «resgata» sempre os seus filhos. A sua influência na vida das crianças (ainda para mais a sociedade mediatizada como a nossa) vai ser incomparavelmente maior do que a da escola.

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